[Resenha] “Eles Eram Muitos Cavalos”: os 20 anos de uma São Paulo que nunca muda

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Publicado em 2001, o romance do escritor mineiro Luiz Ruffato tem a capital paulista e seus personagens invisíveis como protagonistas da narrativa

“São Paulo, 9 de maio de 2000. Terça-feira. (…) Hoje, na Capital, o céu está variando de nublado a parcialmente nublado.” Vinte anos após a sua publicação, “Eles Eram Muitos Cavalos” permanece perfeitamente adequado ao momento presente. Em 70 episódios que se desenvolvem a partir de uma narrativa não linear e de uma linguagem fragmentária e disruptiva que flui entre registros literários e não-literários, o romance nada tradicional de Luiz Ruffato revela a cidade de São Paulo em toda a sua polifonia de vozes e de ruídos, bem como nos fragmentos e nas idiossincrasias que compõem a vida urbana.

O anúncio de um emprego no jornal, a carta de uma mãe ao filho distante, trechos de horóscopo ou o cardápio de um restaurante, todos os eventos que aconteciam simultaneamente na capital naquele 9 de maio foram eternizados  nas 131 páginas de “Eles Eram Muitos Cavalos”. Inspirado pelo poema de Cecília Meirelles, “Dos Cavalos da Inconfidência”, o autor mineiro oferece lugar de destaque à classe trabalhadora na narrativa, jogando luz sobre a rotina de pessoas comuns como a do taxista Claudionor.

Com um narrador que ora surge em primeira pessoa, ora é onisciente e às vezes nem aparece, o livro versa sobre temas fundamentais no Brasil da época, como a violência, o racismo e as desigualdades sociais. Passagens como a da Chacina n°41 ou a história de Crânio, um jovem sensível que morava na favela e gostava de escrever poesias, assustam pela atualidade e nos fazem constatar que, de lá para cá, o país segue incapaz de superar as suas feridas mais profundas.

Por toda a sua genialidade, beleza e ineditismo, “Eles Eram Muitos Cavalos” entrou para a história do país, tornando-se um dos livros mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Além de receber o Troféu APCA e o Prêmio Machado de Assis, o livro de Ruffato já ganhou mais de 10 edições no Brasil e também foi traduzido e publicado em diversos outros países como Portugal, França, Itália e Alemanha.

Quer conhecer outros livros escritos por Luiz Ruffato? Confira a lista!


De mim já nem se lembra

Ao abrir uma pequena caixa encontrada no quarto da mãe falecida, o narrador se depara com um maço de cartas escritas pelo irmão, vitimado por um acidente automobilístico. Cuidadosamente atadas por um cordel, essas cinquenta cartas reconstituem um passado: ao mesmo tempo que ilustram as mudanças políticas, econômicas e culturais durante a ditadura militar brasileira, convidam o leitor a espreitar a memória de uma família com “olhos derramando saudades”.


Estive em Lisboa e lembrei de você

Em Estive em Lisboa e lembrei de você conhecemos Serginho, um mineiro que de tanto viver desiludido com o casamento e a falta de emprego, decide se aventurar em Portugal. Corre a lenda de que lá é possível um trabalhador recompor a vida e fazer um belo pé de meia antes de retornar à terra natal. Pois, então, essa é a hora de Serginho dar as costas à sua Cataguases e seguir rumo ao novo país.


Flores artificiais

O escritor Luiz Ruffato recebe em sua casa a correspondência de um desconhecido. Trata-se de uma compilação de memórias que Dório Finetto, funcionário graduado do Banco Mundial, redigiu a partir de suas muitas viagens de trabalho. A partir dessas observações, Finetto compôs “Viagens à terra alheia”, o manuscrito que mandou a Ruffato. E é este livro dentro do livro que o autor irá transformar no romance Flores artificiais.


Inferno Provisório

Em Inferno Provisório, Luiz Ruffato recria a história do proletariado brasileiro, partindo dos anos 1950 até chegar o início do século XXI. Narrado num calidoscópio de vozes, o romance dá a palavra aos desfavorecidos e às figuras invisíveis que construíram e transformaram nossas cidades e nossas fábricas. Verdadeiro épico proletário, o livro de Ruffato revela um Brasil que muitas vezes não queremos ver.


O Verão Tardio

Depois de mais de vinte anos, Oséias, um homem abandonado por mulher e filho, decide regressar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas Gerais. Durante seis dias, seguimos passo a passo suas andanças, as visitas a familiares e os encontros com velhos personagens locais. A sombra do suicídio de uma de suas irmãs e a comunicação falha com praticamente todos a sua volta acompanham suas tentativas de reatar os fios do passado.


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Yasmin Lisboa

Yasmin é jornalista e estudante de Cinema. Cantora e colecionadora de discos e livros, é fascinada pela cultura popular brasileira.

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