Conheça 5 cantoras essenciais na música brasileira

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Fique por dentro da trajetória de cantoras e compositoras que mudaram a história da nossa música

Desde a sua criação, a música brasileira tem sido arquitetada por grandes mulheres. Representantes de diferentes ritmos, lugares e movimentos, as cantoras e compositoras constroem trajetórias singulares e de grande importância no mapa da nossa música.

De Clementina de Jesus a Rita Lee, aqui nós contamos um pouco sobre as histórias de vozes femininas que revolucionaram a música brasileira e indicamos biografias que vão ajudar você a se aprofundar nas trajetórias de cada uma delas. Que tal saber mais sobre essas grandes mulheres? Boa leitura!


Clementina de Jesus

Clementina de Jesus da Silva nasceu no dia 7 de fevereiro de 1902 em Valença, no Rio de Janeiro, cidade tradicional de jongueiros. Mas, aos 7 anos, mudou-se com a família para o bairro de Oswaldo Cruz, na cidade do Rio. Desde pequena, Clementina aprendeu com a mãe canções da língua bantu e, aos 8 anos, passou a acompanhar o pai em cantorias de viola da região.

A jovem integrava o coral do Orfanato Santo Antônio, onde estudou em regime de semi-internato. Até os 15 anos, participou do grupo de Folia de Reis de seu João Cartolinha e foi convidada pelo sambista Heitor dos Prazeres a ensaiar o seu grupo de pastoras. Inserida no samba, Clementina de Jesus tornou-se diretora da Unidos do Riachuelo e administrou também a agremiação carnavalesca Índios do Acaú.

Por muitos anos, Clementina trabalhou como lavadeira e empregada doméstica. O seu talento como cantora só foi descoberto aos 63 anos, por iniciativa do produtor musical Hermínio Bello de Carvalho, que a ouviu cantando em uma festa no bairro da Penha. Foi ele, inclusive, que organizou a estreia de Clementina nos palcos, no show Movimento Menestrel, onde a artista dividiu recital com o violonista Turíbio Santos.

Assim, Clementina participou do espetáculo Rosa de Ouro, em 1964, e gravou o seu primeiro disco solo em 1966, o homônimo “Clementina de Jesus”. Ao todo, a artista lançou 13 LPs, entre trabalhos solo e participações em discos coletivos. Conhecida como Rainha Quelé, a cantora foi dona de uma voz potente e necessária, que unia Brasil e África e carregava consigo os banzos de seus ancestrais nos cantos que entoava. Clementina faleceu vítima de um derrame em 1987, aos 86 anos.


Elis Regina

Elis Regina de Carvalho Costa nasceu no dia 17 de março de 1945 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A sua carreira musical teve início aos 11 anos, quando ela fez a primeira apresentação no Programa do Guri, na Rádio Farroupilha. Aos 13, a jovem foi contratada pela Rádio Gaúcha e chegou a ser eleita a Melhor Cantora do Rádio no Rio Grande do Sul.

Já aos 16 anos, Elis Regina mudou-se para o Sudeste. Foi nesta época que ela começou a fazer shows em São Paulo e no Rio. Em uma das viagens, Elis lançou o seu primeiro disco, “Viva a Brotolândia”. No entanto, pressionada pela mãe, ela ainda se manteve morando em Porto Alegre por conta dos estudos.

Mas isso era só uma questão de tempo. Logo, Elis conseguiu se mudar para o Rio e, ainda nos anos 1960, a artista tornou-se a grande estrela do Beco das Garrafas, principal ponto de encontro da boemia carioca. Foi no Beco, inclusive, que ela conheceu Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, dois produtores que viraram os seus grandes parceiros na música.

Em 1964, Elis assinou um contrato com a TV Rio, para se apresentar no programa “Noite de Gala”, mas logo se mudaria para São Paulo. Já na capital paulista, a cantora estreou no Festival da Record com a canção “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Além disso, entre 1965 e 1967, Elis apresentou, ao lado de Jair Rodrigues e do Zimbo Trio, o programa “O Fino da Bossa”, na TV Record.

Considerada por muita gente como dona da maior voz de todos os tempos, Elis interpretou canções dos mais variados estilos, fez turnês no Brasil e no exterior e gravou importante discos, como “Elis e Tom” (1974), com Tom Jobim, “Falso Brilhante” (1976) e Elis (1980).

A Pimentinha, como era chamada por Vinícius de Moraes, eternizou em sua voz clássicos da música brasileira como “Águas de Março”, “Como Nossos Pais”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Tatuagem” e “Alô, Alô, Marciano”, de sua amiga e comadre, Rita Lee. Elis Regina faleceu no dia 19 de janeiro de 1982, em São Paulo, vítima de uma overdose aos 36 anos.


Elza Soares

Elza Gomes da Conceição nasceu em 23 de junho de 1930 na favela da Moça Bonita (atual Vila Vintém), mas mudou-se com a família para um cortiço em Água Santa, na Zona Norte do Rio. A infância de Elza foi pobre, porém feliz para uma criança. Aos 12 anos, ela abandonou os estudos para casar-se com um amigo de seu pai e, vivendo em uma relação marcada pela violência sexual e física, foi mãe pela primeira vez aos 13 anos.

Alguns anos depois, Elza apresentou-se escondida da família no programa de calouros da Rádio Tupi, com o objetivo de conseguir dinheiro para cuidar do filho doente. Ao cantar pela primeira vez em público, a jovem deixou Ary Barroso impressionado com o seu talento e o apresentador chegou a dizer a ela que naquele dia nascia uma estrela. No entanto, a carreira musical de Elza precisaria esperar um pouco mais, já que sua família era totalmente contra aquela ideia.

Aos 21 anos, Elza já tinha velado dois de seus filhos, além do primeiro marido. A partir daquele momento, ela precisou cuidar sozinha das crianças, embora na época ainda não trabalhasse. Porém, em meio àquela trágica situação, surgiu a possibilidade de que a jovem pudesse, enfim, aventurar-se no meio artístico.

Com uma voz rouca e potente, Elza Soares tornou-se uma das artistas mais importantes no país, sendo considerada pela revista Rolling Stone como uma das 100 maiores vozes da música brasileira e pela BBC de Londres como a cantora do milênio nos anos 2000.

Aos 90 anos, Elza Soares representa a força e a resistência das populações oprimidas. Mulher, negra e de origem pobre, a artista veste a luta de todos os que clamam diariamente por justiça social. Incansável, a artista permanece se reinventando e, nos últimos cinco anos, lançou três trabalhos, que já são considerados como obras-primas da música brasileira: “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), “Deus É Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019).


Maysa

Maysa Figueira Monjardim nasceu no dia 6 de junho de 1936, no Rio de Janeiro. Filha de uma italiana com um Monjardim, descendente da tradicional família do Espírito Santo, Maysa passou a infância na cidade de Bauru, no interior de São Paulo. Além disso, estudou no colégio Sacre-Coeur de Marie, onde permaneceu interna durante quatro anos.

Maysa sempre sonhou em ser cantora. Na adolescência, ela compôs as suas primeiras canções e começou a fazer apresentações para amigos e parentes cantando e tocando violão. Linda, porém distante dos padrões pré-estabelecidos para uma jovem da época, a cantora sempre foi considerada como a rebelde pela família, especialmente por manter hábitos como fumar, beber e usar calças compridas.

Aos 18 anos, a artista casou-se com André Matarazzo, um empresário rico, que, além de ser 17 anos mais velho, era amigo de seu pai. Em 1956, ela teve o primeiro e único filho, Jaime Monjardim Matarazzo, hoje um reconhecido diretor de novelas no país. Além disso, nesse mesmo ano a cantora lançou o seu primeiro disco, “Convite Para Ouvir Maysa”, com oito sambas-canção que ela mesma compôs.

Em 1957, a artista lançou um disco homônimo e também se separou do marido, que se opunha à carreira da esposa. A separação fez com que Maysa enfrentasse uma turbulenta fase pessoal, marcada pelo consumo excessivo de álcool, além de tentativas de suicídio, namoros relâmpagos e muitos escândalos.

Em 1958, ela lançou “Convite Para Ouvir Maysa”, que trazia o clássico “Meu Mundo Caiu” e foi considerada naquele ano como uma das cantoras mais bem pagas no país. Em 1960, Maysa mudou-se para o Rio de Janeiro e lá gravou “O Barquinho”, canção considerada como um marco da Bossa-Nova. Depois disso, a cantora ainda lançaria mais 10 álbuns, consagrando-se como uma das importantes vozes da música brasileira.

Com uma voz quase rouca e interpretações tristes de canções sobre amores perdidos, Maysa recebeu a alcunha de rainha da fossa. Contudo, o que a cantora oferecia à música brasileira era, na verdade, uma necessária atualização estética do que artistas como Dolores Duran e Sylvia Telles haviam inaugurado no passado, filtrando agora a dramaticidade exagerada, típica dos sambas-canção, e cantando também em outros idiomas.

Maysa faleceu em 1977 em um grave acidente automobilístico na Ponte Rio-Niterói, quando voltava do Rio para a sua casa de praia no município de Maricá.


Rita Lee

Rita Lee Jones nasceu em 1947 na Vila Mariana, em São Paulo. Filha de mãe italiana e pai descendente de imigrantes norte-americanos, Rita é a caçula de três irmãs e sempre foi musical. Na infância, a artista estudou piano clássico com Magdalena Tagliaferro e amava simular um trio vocal com as irmãs Mary e Virginia.

Aos 16 anos, Rita Lee formou a sua primeira banda, o trio feminino Teenage Singers, com quem se apresentava em pequenos shows e festas em colégios. Em 1964, Rita e Lúcia Turnbull, que também integrava o Teenage Singers, se uniram ao trio masculino Wooden Faces. Juntos, eles formaram a banda Six Sided Rockers, conhecida posteriormente como O’Seis.

A saída de três membros do O’Seis, fez com que Rita e os irmãos Arnaldo e Sérgio Baptista criassem um novo grupo, batizado inicialmente como “O Konjunto” e depois de “Os Bruxos”. Em 1966, Rita, Arnaldo e Sérgio tiveram sua primeira aparição na televisão, no programa “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, da TV Record. Na ocasião, o trio foi batizado pelo apresentador Ronnie Von como “Os Mutantes”.

No ano seguinte, Rita e os irmãos Baptista acompanharam o baiano Gilberto Gil na canção “Domingo no Parque” no 3º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. A partir daquele momento, os Mutantes entraram de vez no mapa da música brasileira.

Assim, em 1968, a banda se apresentou com Caetano Veloso no 3º Festival Internacional da Canção, da TV Globo, com a música “É Proibido Proibir”, e ainda gravou com ele um compacto duplo com a canção “Marcianita”, de Sérgio Murilo. Além disso, os Mutantes participaram do disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis” e se tornaram uma das principais vozes do movimento cultural no país.

Com os Mutantes, Rita Lee gravou cinco discos: “Os Mutantes” (1968), “Mutantes” (1969), “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” (1970), “Jardim Elétrico” (1971), “Mutantes e Seus Cometas no País dos Bauretz” (1972). Como a artista revela em sua autobiografia, no mesmo ano de 1972 ela foi expulsa da banda por Sérgio e Arnaldo, seu marido na época. O motivo relatado pelos irmãos para a expulsão de Rita seria uma desconexão da artista com o desejo de evolução da banda para uma sonoridade mais progressiva.

A partir de 1979, Rita Lee começou a produzir discos com Roberto de Carvalho, seu grande parceiro musical e marido até hoje. Juntos, eles fizeram grandes trabalhos como “Rita Lee” (1979) e quebraram recordes de vendas de discos, emplacando hits em novelas e nas paradas de sucesso do mundo todo.

Rita foi uma das primeiras compositoras na música brasileira a explorar abertamente discussões sobre a sexualidade feminina e o empoderamento das mulheres em um meio machista, como o do rock, e em períodos delicados da história, como o da ditadura militar. Não à toa ela foi considerada pela revista Rolling Stone como uma dos 100 maiores artistas da Música Brasileira.


Qual delas é a sua preferida?


Yasmin Lisboa

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Yasmin Lisboa

Yasmin é jornalista e estudante de Cinema. Cantora e colecionadora de discos e livros, é fascinada pela cultura popular brasileira.

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