Estante Entrevista: Livros indicados por José Eduardo Agualusa e Vinícius Neves Mariano

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Em live no Instagram da Estante Virtual, os autores conversaram sobre as relações entre as literaturas lusófonas e sugeriram leituras. Confira!

Na terça-feira (24), recebemos o escritor, jornalista e editor angolano José Eduardo Agualusa e o escritor e publicitário mineiro Vinícius Neves Mariano em mais uma live doEstante Entrevista. A conversa aconteceu em nosso perfil no Instagram e teve como fio condutor o debate sobre a língua portuguesa na literatura. Durante mais de 40 minutos de bate-papo, os autores dialogaram a respeito das aproximações e distanciamentos existentes entre as literaturas lusófonas, isto é, dos países que compartilham da cultura lusófona e falam uma mesma língua: o português.

Natural de Angola, mas em constante deslocamento pelos países lusófonos, Agualusa acompanha desde o início de sua trajetória literária, a formação das literaturas de países como Portugal, Brasil e a própria Angola. De acordo com o escritor, a literatura brasileira teve grande influência na literatura angolana, sobretudo, na década de 1950. Ele explica que, depois das independências desses países, houve uma certa ruptura na relação entre as suas produções literárias, mas que, depois, elas voltaram a se aproximar.

“Curiosamente, o Brasil ficou alguns anos distante da África. Mas isso mudou muito nos últimos 15 anos. Hoje, você tem a maior parte dos escritores africanos e portugueses publicados no Brasil e também em Portugal você tem os escritores africanos e brasileiros sendo publicados. Hoje, há mais conhecimento mútuo. Não quer dizer que não se possa fazer mais, mas já há uma maior circulação do livro e de autores nestes países”, complementa.

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O idioma é um dos elementos que aproxima a obra de autores lusófonos, mas, não é o único. O escritor mineiro de Alfenas, Vinícius Neves Mariano, conta que a literatura africana surgiu em sua vida como uma importante aliada em sua formação identitária. Isso porque foi através dela que Mariano pôde refletir a respeito de sua presença no mundo e também a respeito de sua ancestralidade. O autor se descreve como um “beneficiário da quantidade de autores africanos que o Brasil começou a trazer nessas últimas décadas”.

“Eu digo isso porque o meu despertar para a minha herança africana veio pela literatura africana em primeiro lugar, antes da literatura brasileira. Nos meus 18 anos eu fui buscar essa literatura e conhecer esses autores que falavam a mesma língua que eu. Eu não estava só atrás da língua, eu estava atrás de jeitos de se pensar, sentir e existir, que eu não conseguia encontrar aqui nesse mundo que eu tinha”, conclui.

Ao fim da conversa, Agualusa e Mariano indicaram livros que marcaram as suas vidas e que são fundamentais para quem deseja mergulhar nas literaturas lusófonas. Conheça a seleção e aproveite a leitura!


Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

Bernardo Soares, o semi-heterônimo do Livro do Desassossego, é ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Ele escreve sem encadeamento narrativo claro, sem fatos propriamente ditos e sem uma noção de tempo definida. Os seus temas não deixam de ser adequados a um diário íntimo: a elucidação de estados psíquicos, a descrição das coisas, através dos efeitos que elas exercem sobre a mente, reflexões e devaneios sobre a paixão, a moral, o conhecimento. “Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo”, escreve o narrador.



Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa

Iara é uma jovem linguista portuguesa. O seu trabalho é recolher as palavras novas que surgem todos os dias e dicionarizar aquelas que de fato configuram neologismos. Essa é uma tarefa nem sempre gratificante. Um dia, porém, ela faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está subvertendo a língua portuguesa, a nível global. Maravilhada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano de passado sombrio, e os dois partem em busca de uma coleção de misteriosas palavras que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”.


Os Transparentes, Ondjaki

Os Transparentes apresenta personagens surpreendentes, ricos em complexidade humana, que desejam, choram, festejam, lutam e fantasiam. Odonato, Xilisbaba, Amarelinha, AvóKunjikise e MariaComForça moram em um edifício no LargoDaMaianga, centro de Luanda. Outras pessoas, como o VendedorDeConchas, o Cego e o Carteiro, passam eventualmente por ali. Eles contam suas histórias, relembram os tempos da guerra e fazem planos para o futuro. O livro compartilha histórias íntimas e coletivas, problemas individuais e familiares que traçam um painel de uma Angola cheia de contrastes, vivendo a transição muitas vezes difícil entre a cultura arraigada e a chegada do novo.


Poema Sujo, Ferreira Gullar

Publicado originalmente em 1976, Poema sujo transformou a paisagem da poesia brasileira com o arrebatamento de versos e a expressão máxima de uma subjetividade convulsa pela atmosfera sufocante da ditadura. O poema foi escrito por Ferreira Gullar na Argentina, no período em que o autor se encontrava exilado.


Terra Sonâmbula, Mia Couto

Um ônibus incendiado serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, durante a sua fuga da guerra civil que devastou Moçambique. Dentro do veículo, há vários corpos carbonizados, mas, à beira da estrada um outro corpo surge. Junto com ele, está uma mala, que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga, e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, que, aos olhos do garoto, são a única esperança contra os senhores da guerra.


Um rio preso nas mãos, Ana Paula Tavares

Um rio preso nas mãos apresenta 38 crônicas que viajam por diferentes assuntos e narrativas, deslizando entre a autobiografia e a escrita ficcional, a crítica sociopolítica e as mitologias africanas, a oralidade e a escrita, o passado e o presente – sobretudo do povo de Angola e de suas mulheres. Através do desenho de paisagens e pessoas, Ana Paula Tavares transporta o leitor para uma escrita que nos comprova que é possível banhar-se nas mais diversas águas dentro de um mesmo rio.


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Yasmin Lisboa
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Yasmin Lisboa

Yasmin é jornalista e estudante de Cinema. Cantora e colecionadora de discos e livros, é fascinada pela cultura popular brasileira.

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