[Resenha] “Vista Chinesa” mostra lado cruel e sombrio de um dos cartões-postais do Brasil

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No livro, escritora Tatiana Salem Levy conta a história de uma mulher que foi estuprada enquanto corria no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro

Lançado em março, o livro Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy, é de tirar o fôlego. Contextualizado no período pré-olímpico, no Rio de Janeiro, a obra narra a história de Júlia, uma sócia de um escritório de arquitetura, que está planejando alguns projetos para a Vila Olímpica. Antes de uma das reuniões da empresa, ela decide correr no Alto da Boa Vista, local rodeado pela Mata Atlântica em plena cidade.

Ao se aproximar da Vista Chinesa, um dos principais pontos turísticos do Rio de Janeiro, ela é abordada por um homem armado, levada para dentro da mata e estuprada. Mesmo anos depois do ocorrido, Júlia precisa lidar com o trauma, tanto diante da família quanto da sociedade. Para tentar amenizar a dor, ela decide escrever a história em formato de carta para os dois filhos, que nasceram depois de alguns anos em que ocorreu o estupro.

O livro é baseado na história real de uma amiga muito próxima de Tatiana Salem Levy. Em 2014, ela foi estuprada na Vista Chinesa, mesmo local onde ocorre o crime na história. No próprio livro, a autora lembra como foi difícil entrevistar a amiga. “As feridas não eram apenas profundas – estavam na superfície, na sua pele, ainda muito abertas e muito vivas”, conta.

Em Vista Chinesa, Tatiana consegue retratar, de forma sutil e, ao mesmo tempo, profunda, as dores que a personagem leva durante a vida. A vida de Júlia muda completamente, principalmente sua relação com o corpo. “(…) Mas aquela terça-feira na mata ficou cravada não só na alma (…). Ficou impressa no corpo. Está tudo escrito na minha pele (…)”, narra em um dos trechos.

Aquela terça-feira repercutiu na minha aparência física como se nunca mais o meu corpo pudesse ser aquele corpo pelo qual eu me dispunha a subir e descer a Vista Chinesa”.

Outro ponto forte do livro é mostrar a culpa que as vítimas de estupro carregam durante a vida, até mesmo por serem pré-julgadas pela sociedade. Assim como ocorre na vida real, Júlia se questiona se não foi sua culpa ter acontecido o crime, já que ela “não deveria ter ido correr sozinha na Vista Chinesa”. Com maestria, Tatiana reflete exatamente as angústias e os medos vividos por mulheres todos os dias. Já é um dos melhores lançamentos de 2021.

Conheça outros livros da autora e relacionados ao assunto!


A chave da casa, de Tatiana Salem Levy

Passando por temas como a morte da mãe, a relação com um homem violento, viagem e raízes, A chave de casa é um livro pulsante, cheio de vida e emoção. A autora tece um romance de vozes diversas – como são as vozes da memória -, histórias que se complementam num tom de densa estranheza.


Dois rios, de Tatiana Salem Levy

Nas areias da praia de Copacabana, uma francesa de cabelos revoltos e andar desengonçado se aproxima de Joana e altera o curso dos seus dias. A estranha beleza de uma cicatriz, a boca que entorta quando sopra a fumaça do cigarro, a vivacidade de um sorriso: é difícil entender o que faz com que, em meio a tantas pessoas, apenas uma seja capaz de salvar alguém. Antes de conhecer Marie-Ange, Joana vive sob uma redoma que a afasta da vida, refém da culpa, dos laços rompidos com o irmão, do comportamento obsessivo da mãe. Ao seu lado, se lançará à travessia difícil entre duas ilhas, conduzida pelos contornos incertos do amor. A partir de viagens abruptas ou interrompidas, Tatiana Salem Levy tece com delicadeza as tramas de encontros capazes de mover e estancar.


Abuso – A cultura do estupro no Brasil, de Ana Paula Araújo

Abusoé resultado de quatro anos de pesquisas realizadas pela jornalista Ana Paula Araújo, viagens pelo país e mais de 100 entrevistas com vítimas e familiares, criminosos, psiquiatras e especialistas. No livro, Ana Paula analisa casos que chocaram os brasileiros, acompanha o caminho das vítimas por justiça e mostra todas as facetas e implicações desse crime tão cruel e, infelizmente, tão corriqueiro no Brasil.


Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo

Mulheres empilhadas é uma obra de ficção, mas todas as personagens desse livro existem de fato. As protagonistas dessa história são as mulheres. Todas elas: as já feitas e as meninas, as gordas e as magras, as negras e as pardas, as indígenas e as descendentes de imigrantes, as analfabetas e as com grau universitário. Nesse romance intenso, que acompanha a trajetória pessoal de uma advogada, Patrícia Melo fala sobre a matança sistemática de mulheres no Brasil, que atinge democraticamente todas as classes sociais.


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Gabriela Mattos
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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