Sobrevivendo no Inferno: uma nova chance para ler e ouvir o rap nacional

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Obra-prima dos Racionais MCs é leitura obrigatória de vestibular e 20 anos depois do lançamento mostra-se mais atual do que nunca.

Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay acabaram de eternizar suas letras também nas estantes de todo país. Os Racionais MC’s publicaram em outubro de 2018 o livro Sobrevivendo no Inferno (Companhia das letras). Uma extensão e aprofundamento da obra-prima do grupo. O quinto álbum de estúdio lançado pela gravadora independente Cosa Nostra em dezembro de 1997.

Considerado o álbum mais importante do rap brasileiro, Sobrevivendo no Inferno transformou os Racionais em uma das bandas mais populares do gênero com turnês nacionais e internacionais. A fala de igual para igual, o balanço inovador na base do rap e as letras urgentes, agora transformadas em texto, criaram uma subjetividade onde o morador da periferia finalmente encontrou uma identificação.

Resultado: 21 anos depois, o disco foi anunciado como leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp de 2020, um dos mais importantes do País.

Números e vendas

Impulsionado pela crítica, o disco “Sobrevivendo no inferno” atingiu mais de um milhão e meio de cópias vendidas. E o livro vem seguindo o exemplo. Na Estante Virtual, nos últimos três meses foram entregues cerca de 200 exemplares do título. No ranking de mais vendidos da Publishnews o livrou ficou em 15º lugar na lista de não-ficção após o lançamento.

Com apresentação do professor Acauam Silvério de Oliveira, fotos clássicas e outras inéditas, o livro com os raps dos Racionais é uma imagem bem-acabada de uma sociedade complexa que se tornou humanamente inviável entre a realidade dos presídios e a vida nas periferias do Brasil. “Um disco que salvou vidas”, classificou Acauam.

“Sessenta por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais/
Já sofreram violência policial/ A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras/ Nas universidades brasileiras/ Apenas dois por cento dos alunos são negros/ A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo.

Aqui quem fala é Primo Preto/ mais um sobrevivente”

Capítulo 4, Versículo 3 

As letras fortes e sensíveis de músicas como “Diário de um Detento” e “Mágico de Oz” não falam de um passado distante. A frase dita pelo rapper Primo Preto no começo de “Capítulo 4, Versículo 3” se comprova pelos dados do Atlas da Violência 2017,  lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o documento, a população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios no Brasil.

Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. E o quadro piora se você for mulher. Enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%. A notícia boa é referente ao acesso dos negros à universidade. Duas décadas depois do álbum tivemos avanços. Segundo o IBGE, em 2015, o dado mais recente disponível, 30% das pessoas com nível superior completo eram negras ou pardas (5.424.514 pessoas). 

O percentual de negros com nível superior quase dobrou entre 2005 e 2015, fruto da política de cotas implantadas em universidades públicas e programas de bolsas e financiamentos para estudantes pobres, como Prouni e Fies.

Um rapaz latino-americano/ apoiado por mais de 50 mil manos

A história do grupo se confunde com a história de toda a sua geração. Encarnando a “furia negra” e descortinando a periferia de maneira inédita para todo país, afinal “periferia é periferia em qualquer lugar”. Mano Brown foi ouvido por milhões de pessoas e sua história continua sendo contada. Em breve, também no livro de Tarso de Melo Muita treta: ritmo, poesia e fúria dos Racionais MC’s, um compilado de ensaios sobre os discos do grupo.


Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.
Natália Figueiredo
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Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.

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