Entre os contos, romances e crônicas de Moacyr Scliar

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Com mais de 70 obras publicadas – e muitas premiações na bagagem -, hoje é dia de homenagear um grande homem da literatura brasileira!

Um dos legados deixados por Moacyr Scliar é a reflexão sobre o verdadeiro significado de ‘inspiração’. Dizemos isso porque, para o escritor brasileiro, ela não nada a ver com nenhuma influência externa. Pelo contrário: ela seria o “resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já estão no próprio inconsciente”, dizia ele. Formado em Medicina, seu primeiro livro “Histórias de um médico em formação” foi publicado em 1962, inspirado no cotidiano da sua vida de estudante. Foi apenas o primeiro passo de uma bela e grande carreira que estava por vir!

Em um dia como hoje, em 23 de março de 1937, nascia Moacyr Scliar em Porto Alegre (RS). Filho de mãe professora, ele foi alfabetizado dentro da própria casa e com apenas 6 anos de idade foi cursar da Escola de Educação e Cultura.  Em 1955, iniciou os estudos no curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – especializando-se em medicina sanitária e ocupando altos cargos de chefia e liderança. Já pela década de 1970, Scliar realizou sua pós-graduação em Israel e também fez doutorado em Ciências – pela Escola Nacional de Saúde Pública, tornando-se, mais tarde, professor da mesma instituição onde se graduou.

Entre a Medicina e a literatura

Poderíamos citar suas  muitas outras conquistas e titulações. Porém, quando nos damos conta de que um médico tão emblemático e atuante em sua profissão conseguiu publicar – pasmem! –  mais de 70 livros ao longo de sua trajetória, percebemos que estamos diante de um fenômeno literário. Suas obras passearam entre os gêneros de contos, romances, ficção  infatojuvenil, crônicas, além de ensaios com temáticas  judaicas, socialistas e de saúde pública. Seu estilo de escrita sempre foi cativante e tinha duas características marcantes: leveza e ironia. Adjetivos suficientes para premiá-lo com o Jubuti (1988, 199, 2000 e 2009), na Associação Paulista de Críticos de Arte (1989) e o Casa de Las Américas (1989). Em 2003, a Academia Brasileira de Letras o elegeu de forma honrosa.

Infelizmente, em 27 de fevereiro de 2011, a literatura brasileira perdeu um grande astro da escrita e criatividade- por falência múltipla dos órgãos. Aliás, perdeu entre “aspas”. Suas dezenas de obras – traduzidas para mais de 40 idiomas – estarão eternizadas pelas estantes e bibliotecas do Brasil afora. Conheça 10 dos seus grandes livros!


O imaginário cotidiano

A coletânea reúne vários textos ficcionais – e inimagináveis – escritos por Moacyr na seção intitulada ‘Cotidiano”, na Folha de S. Paulo, desde 1993. São diversas histórias entre diálogos, suspenses e dilemas recorrentes na sociedade e na vida cotidiana.

O imaginário cotidiano


Um sonho no caroço de abacate

A história – que foi adaptada para o cinema – é um manifesto contra sentimentos e emoções pré-concebidas e, em especial, o preconceito contra judeus e negros. O autor traz à tona o tema do estranhamento do diferente, a incapacidade de aceitação, pela sociedade, daquele que foge dos padrões sociais e culturais estabelecidos como “normais”. Mardo, um judeu, e Carlos, um negro, discriminados, lutam para ficar amigos e lutam para serem aceitos no colégio e nas respectivas famílias. A mãe de Mardo, judia, ao imigrar para o Brasil, deixa na Rússia um sonho de infância: o de comer abacate. Fruta cara, inacessível, o abacate representa o sonho improvável de liberdade (de crença, de religião), de felicidade, de conquista e de esperança

Um sonho no caroço de abacate


O amigo de Castro Alves

Como ele já bem dizia em seus versos: “A praça é do povo, como o céu é do condor.” A vida de Castro Alves sob a ótica de Moacyr.  As narrativas tratam sobre sua curta vida: a infância e a adolescência na Bahia, as aulas na Faculdade de Direito do Recife, a adesão à causa abolicionista, o teatro, os amores, o acidente mutilante, a agonia final. Nesta leitura, aprendemos como é grande a distância entre o céu da poesia e a realidade histórica.

 


História para (quase) todos os gostos

A leitura é uma aventura e, por intermédio das palavras de Moacyr Scliar, não há outra definição mais fidedigna. Contos e histórias – ora suaves, ora radicais -, pode ser que os leitores fiquem confusos entre o que é realidade e o que é o fantástico. De qualquer forma, são contemplados os que gostam de e profecias, viagens, fantasias dialéticas, mistérios artísticos, parques de diversões, televisores, futebol, gente famosa, temas bíblicos, detalhes eruditos, controle remoto, automóveis, etc. O livro é para todos os gostos de públicos!

Histórias para (quase) Todos os Gostos


A massagista japonesa

A massagista japonesa reúne 35 crônicas  escritas na década de 80. Como foi uma característica permanente de seu trabalho como cronista, o autor usa como matéria-prima pequenos detalhes do cotidiano, sempre permeado pelo humor. Com um olhar aguçado para captar o absurdo, Scliar dá novos contornos ao mundano, denunciando pelo grotesco as loucuras do dia a dia. No texto que empresta o nome ao livro, o choque de realidade causado pela massagista japonesa é apenas um exemplo da grande arte que é escrever sobre miudezas da vida.

A massagista japonesa


Saturno nos Trópicos

Neste livro, o autor destrincha o conceito de melancolia a partir do olhar de outros clássicos, como Cervantes, Shakespeare, Machado de Assis e Clarice Lispector. E uma tentativa obsessiva de decifrar o sentimento – que iniciou no início da Idade Média e perdura até hoje – ele  faz um panorama histórico e psicológico de quem admite que a melancolia tem espaço na sua vida.

Saturno nos Trópicos


Eu Vos abraço, Milhões

A história reúne a Coluna Prestes e a Revolução de 30 às reflexões, perplexidades e fantasias de um personagem inesquecível – o Valdo. Desde que conhece o comunismo, ele se dá conta de que a desigualdade era uma injustiça e de que havia pessoas lutando pelo fim da opressão social.  mudou a vida do garoto. Decidido a entrar para o Partido Comunista, Valdo abre as porteiras da estância e cai no mundo. Levando poucos pertences e quase nenhum dinheiro, embarca clandestinamente num trem com destino ao Rio de Janeiro. 

Eu Vos abraço, Milhões


A paixão transformada

Entre dezenas de trechos de textos que, ao longo da história, registraram opiniões e fatos relativos à doença e à cura, o autor comenta cada um deles buscando uma resposta ou explicação plausível. Nesse sentido, Moacyr faz uma metáfora com várias vozes da Medicina: do corpo, do grito, do paciente, do diagnóstico. As várias vozes que falam e que nos calam. Uma leitura para quem topa mergulhar no subjetivo!

A paixão transformada

 


Amor em contexto, amor em texto

Escrito com a escritora brasileira Ana Maria Machado, os autores retratam uma conversa instigante sobre amores, fantasia e literatura. O que recheia esta leitura de boas histórias é a desconstrução da paixão romântica e doses de realidade para quem sonha em  encontrar uma “par perfeito”. A noção de amor romântico antes em voga era prima-irmã do romantismo literário. Assim, somos convidados a pensar no quanto a literatura influenciou o ideal de amor celebrado pela cultura ocidental nos últimos séculos, mas pode-se dizer que, mais do que nunca, ficção e realidade misturam-se dentro de cada um de nós.

Amor em contexto, amor em texto


A orelha de Van Gogh

O título do livro nasceu do nome de um dos contos da obra, que transita entre o cristianismo, judaísmo e outras complexidades humanas. São textos que espantam pela simplicidade formal, vizinha da parábola bíblica e do fabulário judaico, só que acrescida de um humor sutil e algo melancólico, do tipo que faz rir à mente a partir da construção de paradoxos muitas vezes cruéis. Em ‘A orelha de Van Gogh’, há uma situação humana quase trágica, tensionada por um detalhe mórbido, que dá uma verdadeira “bofetada metafísica” no leitor. Segundo Julio Cortázar, do New York Times:”Os leitores estão convocados a descobrir os prazeres da obra deste mestre brasileiro.”

A orelha de Van Gogh

 

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Andréia Coutinho Louback

Andréia Coutinho Louback

Apaixonada por histórias e viciada em comprar livros. Mestre em relações étnico-raciais, ela atua rumo à superação do racismo na sociedade, em especial, na área da comunicação.

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