Estante Resenha: Rita Lee não poupa a si mesma em autobiografia

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Por Natalia Figueiredo A última grande obra de Rita Lee não foi feita em versos. A compositora, que ditou tendências no rock brasileiro e depois no mundo pop, contou em formato de pequenas crônicas detalhes de sua vida. Desde a infância no casarão em São Paulo, onde morou com a família – metade de origem americana, metade italiana – até a vida adulta, entre as muitas parcerias musicais, as quais fez parte e sempre foi a grande estrela. Lendo as 294 páginas de Rita Lee: uma autobiografia dá para esquecer que quem escreve é a mulher que ajudou a levar o tropicalismo para o mundo, que criou novos formatos na MPB e que vendeu 55 milhões de discos em uma carreira de meio século. Ela mesma se classifica como “não tocava, nem cantava porra nenhuma” e quando ia preencher fichas de hotéis ficava constrangida em escrever: cantora. Escrevia compositora e, nos dias bons, musicista. A baixo autoestima de Rita Lee explica muito de seus porres, as diversas internações e os problemas com álcool e drogas. Muito mais do que traumas da infância ou brigas com “ozmanos” – como ela identifica Arnaldo Baptista e Sergio Dias. Seu primeiro porre foi aos 8 anos, quando já estava diagnosticado o problema: “O defeito da Ritinha é não saber quando parar”, profetizado por tia Mary. No entanto, o papel de vítima, definitivamente, não lhe servia. Mesmo abusada na infância por um técnico, sendo expulsa dos Mutantes, por seu ex-marido Arnaldo e presa quando estava grávida de seu primeiro filho, Beto, durante a ditadura militar, a roqueira assume suas mancadas e reconhece que “suas melhores músicas foram compostas em estado alterado e as piores também”. Ela, hoje, não veste um discurso religioso anti-drogas, apesar de ter abdicado de todas as substâncias após o nascimento da neta Ziza. Rita Lee conta que apenas encontrou um barato maior na meditação e na vida reclusa no sítio onde vive.

A baixo autoestima de Rita Lee explica muito de seus porres (…) Muito mais do que traumas da infância ou brigas com “ozmanos”
Aos críticos que reclamaram da falta de datas e aspectos técnicos do processo criativo, eles estão corretos. Realmente não há. Pecado mortal, que faz os jornalistas pirarem. Mas a resposta vem nas próprias páginas do livro, com sua memória “já queimada pelos incêndios existenciais que ela mesma ateou”. Se faltaram informações técnicas, sobraram histórias sobre o contexto cultural sob o qual viviam os jovens paulistanos na década de 60 e as influências estrangeiras. Entre uma história e outra, Rita recebeu a ajuda de um fantasminha camarada, o jornalista Guilherme Samora. Amigo e estudioso de sua vida, que fez o papel de apoio, em alusão aos ghost writers de outras “autobiografias”. Para ser justa, há alguns problemas de revisão que não comprometem a obra, mas deixam passar erros de grafia. Como a estrela da Tropicália, o guitarrista Lanny Gordin, que é apresentado como Lenny Gordon. Rita Lee não é obrigada a saber como se escrevem os nomes de todos os personagens citados, mas a Globo Livros sim. O livro oferece uma grande homenagem a família da autora, com histórias que talvez nunca saberíamos e o riso fica fácil com as aventuras de “Rito, o menino baiano” e seus bichinhos de estimação. Ela lembra com carinho de grandes amigos como Elis Regina, Hebe e Ney Matogrosso – o cupido de seu relacionamento com Roberto. Em um momento em que as mulheres ganham cada vez mais força, é muito bom lembrar como Rita abriu o caminho, ainda nos anos 70, para a emancipação feminina e a liberação sexual da mulher em suas músicas e ações. Ao fim, fica comprovado que Ritinha fez e ainda fará muita gente feliz! [caption id="attachment_25495" align="aligncenter" width="200"]rita lee uma autobiografia Clique na imagem e confira na Estante Virtual[/caption]
  Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.]]>

Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.

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