Em homenagem à Marielle: 7 autoras negras que marcaram o feminismo

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Marielle, presente! Diante de uma perda inestimável no mês da mulher, a pauta sobre os desafios do racismo e do feminismo negro é urgente !

O Brasil está em choque! Na noite de ontem (14 de março), fomos surpreendidos pela notícia do assassinato de Marielle Franco, 38 anos, vereadora do PSOL, no Rio de Janeiro. Como mulher negra, ativista e intelectual, ela foi protagonista de uma voz e participação fundamental na pauta dos direitos humanos e, sobretudo, na luta da população negra por justiça e igualdade. Minutos antes de ser executada, a socióloga mediou uma roda de conversas com temática “Jovens negras movendo as estruturas”, na Casa das Pretas (RJ).

21 dias de ativismo contra o racismo

O encontro no qual Marielle marcou presença é uma das iniciativas da campanha “21 dias de ativismo contra o racismo” (3 a 21 de março) –  que engloba a agenda de uma série de eventos que estão acontecendo ao redor do mundo. Com enfoque na conscientização, o calendário de atividades e palestras com ênfase em reflexões e questionamentos das desigualdades raciais – todos os dias, para além do mês de março e novembro.

O movimento nos prepara para o dia 21 de março, marcado pelo Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Esta data foi instituída em 1969, em memória aos homens e mulheres negras que marcharam contra o regime apartheid e a lei de passe, na África do Sul. O enfrentamento e a coragem daqueles cidadãos terminaram em um grande confronto e tragédia, resultando na morte de 69 pessoas e mais de 180 feridas.

Já que essas mulheres, meninas, jovens, movem muitas estruturas, eu fui vendo cada rosto, cada momento, cada lugar, cada reconhecimento dessas identidades para além das quatro – da perspectiva do cinema, do audiovisual, da musica, da comunicação (…) Dessas muitas mulheres que vão construindo e movendo as estruturas, desse lugar de quem constrói essa diversidade cultural, de quem remonta as nossas histórias”  –  (trecho da fala de Marielle no evento de ontem)

Mulheres negras na luta por visibilidade e representatividade

Dentro deste ensejo, podemos pensar sobre como o histórico do feminismo ganhou diferentes proporções na luta pelos direitos civis das mulheres do mundo afora. O que, por outro lado, invisibilizou a luta das mulheres negras – as quais, muito antes, já trabalhavam e refletiam sobre desigualdade de gênero. Diante disso, deixamos um questionamento crucial: de que tipos de experiências estamos falando afinal se, na verdade, tratamos de realidades distintas?

Nessa perspectiva, a temática racial e de gênero alcançou espaços significativos nas arenas de debates no cenário contemporâneo. Em especial, o feminismo negro, um movimento articulado por intelectuais negras que – há muito tempo! – lutam por voz e representação, dois fatores ofuscados pelo feminismo hegemônico.

Marielle, presente!

Então, é impossível falarmos de feminismo sem trazer à tona as ricas contribuições das feministas negras. Por isso, separamos 7 autoras – afro-brasileiras, afro-americanas e uma nigeriana – que desenvolveram produções em seus diversos estilos sobre gênero, raça, classe, processos pedagógicos e lutas na contramão do silêncio. Confira!


Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adiche

A adaptação do discurso divulgado no TEDxEuston, publicado em 2002, ganhou uma versão literária em uma linguagem simples, didática e convidativa para ser lida uma, duas, três e quantas vezes acharem necessário. Chimamanda é uma autora nigeriana que questiona sobre os desdobramentos positivos de uma consciência feminista. Ela mergulha em lembranças do passado para construir sua narrativa a partir do contexto social da Nigéria e, assim, nos apresenta os desafios de romper com os estigmas e enfrentar a masculinidade – institucionalizados. A obra é destinada a todos os públicos: homens e mulheres. Não é à toa que o seu vídeo no youtube já ultrapassou a marca de 165 mil visualizações e é sucesso ao redor do mundo.

Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adiche


Ensinando a transgredir – a educação como prática de liberdade, de bell hooks

Ensinar é um ato teatral. bell hooks (isso mesmo, ela faz questão de que sua assinatura tenha grafia no diminutivo) é uma ativista, professora universitária e feminista norte-americana. Em 14 capítulos divididos em ensaios textuais, a autora fala sobre como transgredir as fronteiras raciais, sexuais e de classe dentro e fora das escolas, voltando-se para a essência da educação. Embora não seja um livro exclusivo para professores apenas, hooks nos convida a refletir o porquê de as salas de aula terem se tornado um lugar de tédio, e não de entusiasmo. Assim, a obra nos mostra caminhos para repensar os estudos feministas, pedagogia crítica, questões multiculturais, a arte de ensinar e muito mais.

Ensinando a transgredir - a educação como prática de liberdade, de bell hooks


Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

Eleita como uma leitura fundamental para a compreensão crítica das diferentes opressões sociais que atuam em conjunto, a autora faz uma viagem no tempo para contextualizar a centralidade da temática de raça, gênero e classe. Davis passa pelos debates sobre a escravidão nos Estados Unidos, abolicionismo penal, movimento sufragista, emancipação, estupro e racismo. Considerada uma obra acadêmica, ela nos impulsiona a fazer um comparativo com o contexto brasileiro e, assim, criarmos perspectivas de mudanças estruturais e urgentes dentro de sua linha marxista de pensamento.

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis


Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil, de Sueli Carneiro

Por mais de uma década, a ativista e feminista Sueli Carneiro se dedicou à produção de vários artigos para a imprensa brasileira. Logo, o livro reúne os melhores textos que apresentam críticas e denúncias às relações sociais e políticas do Brasil. Trata-se de narrativas curtas e densas, sem perder caráter didático e ideológico quando falamos de racismo, sexismo e direitos humanos. Dividido em oito categorias, encontramos informações sobre estatísticas, gênero, mercado de trabalho, feriados temáticos e cotas, com pontes atemporais para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual.

Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil, de Sueli Carneiro


O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro

 Para alguns, o termo “lugar de fala” acabou se tornando um clichê quando falamos de minorias. O que nunca poderia ter acontecido se, antes, refletíssemos em seu real significado e relevância no debate sobre desigualdades. De forma ousada, Djamila Ribeiro nos dá uma aula sobre racismo, sexismo e feminismo para, enfim, compreendermos a pergunta principal que deu origem ao título da obra. Seu livro fala sobre encarceramento, branquitude, mulheres indígenas e caribenhas, afetividade, empoderamento e masculinidades. Dentre todos aqui, é o lançamento mais recente (2017) e indispensável aos que buscam aprofundar os diálogos do feminismo negro.

O que é lugar de fala?, de Djamila Ribeiro


Rompendo o silêncio, de Alice Walker

Uma das escritoras mais influentes da atualidade foi brilhantemente premiada pelo Pulitzer e pelo National Book Award. Sua escrita é tão profunda que é conhecida pelo poder de criar imagens na mente do leitor. O livro é curto, porém carregado de reflexões densas. Como num diário, Walker relata, de forma poética, detalhes de suas impressões em suas viagens para Ruanda e Congo (África) e na região da Palestina e Israel (Oriente Médio). Convidada por organizações feministas e de direitos humanos, a missão não foi nada fácil. Ela encontra vítimas e sobreviventes de violência das guerras em determinadas regiões desses países e registra sobre crimes sexuais, tortura, mutilações, além de pressões psicológicas que deixaram marcas eternas. Autora também de A Cor Púrpura, a obra foi adaptada pelo diretor cinematográfico Steven Spielberg para o audiovisual e foi indicada a 11 Oscars.

Rompendo o silêncio, de Alice Walker


Mulheres negras em primeira pessoa, de Jurema Werneck

Iniciativa da instituição Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a publicação organiza literária uma série em formatos de entrevistas com mulheres negras de cinco regiões do país, indicadas por organizações filiadas que fazem parte. Os relatos expressam o cotidiano de 20 mulheres brasileiras, de diferentes estratos sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade. O objetivo maior da leitura é aprofundar a reflexão sobre a (des)construção de estereótipos racistas e sexistas, que nos possibilita aprender lições de empatia, respeito e acolhimento ao outro. A obra é um grito contra o silenciamento das vozes e situações de discriminação e preconceito vivenciadas todos os dias.

 Mulheres negras em primeira pessoa, de Jurema Werneck


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Quais outros livros ou autoras vocês acrescentaria à lista?

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Andréia Coutinho Louback

Jornalista em Estante Virtual
Apaixonada por histórias e viciada em comprar livros. Mestre em relações étnico-raciais, ela atua rumo à superação do racismo na sociedade, em especial, na área da comunicação.
Andréia Coutinho Louback
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Andréia Coutinho Louback

Apaixonada por histórias e viciada em comprar livros. Mestre em relações étnico-raciais, ela atua rumo à superação do racismo na sociedade, em especial, na área da comunicação.

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