[Resenha] A necessária e complexa história de “Fique comigo”

(5 Estrelas - 3 Votos)

Este é o primeiro romance da autora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, uma das convidadas da Flip 2019

Uma das autoras convidadas da 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2019), Ayòbámi Adébáyò é um dos principais fenômenos da literatura contemporânea da Nigéria e do mundo. Fique comigo, seu primeiro romance, conta a história de uma mulher que tem dificuldades de engravidar do marido e sofre pressão tanto da família dele quanto da sociedade.

Yejide e Akin se conheceram ainda na universidade e logo se casaram. Apesar de a cultura nigeriana aceitar a poligamia para os homens, os dois acordaram de que não haveria outras esposas na relação. No entanto, a sogra da jovem consegue uma segunda mulher para o filho. A partir disso, Yejide se convence de que só a gravidez salvaria seu casamento e faz de tudo para engravidar.

Narrado sob a perspectiva de Yejide e de Akin, o livro tem como pano de fundo a turbulência política da Nigéria, nos anos 1980. A obra é mesclada em dois momentos, nos anos de 1985 e 2008. Logo no primeiro capítulo, narrado pela mulher em 2008, sabemos que ela não está mais com o marido, o que já instiga o leitor a continuar nas próximas páginas.

“Devo deixar esta cidade hoje para ir ao seu encontro. Minhas malas estão prontas, e os cômodos vazios me lembram de que eu deveria ter partido uma semana atrás. (…) Depois que partir, provavelmente não vou nem ao menos me lembrar do homem que me pediu em casamento”.

Um dos principais pontos positivos do romance de Ayòbámi é justamente a intercalação entre perspectivas dos dois personagens. A narrativa nos aproxima tanto de Yejide quanto de Akin, o que cria mais empatia e imersão na história. Ler Fique comigo é como montar um quebra-cabeças: conforme você conhece os fatos, liga-os a outros e é surpreendido pelo fim dos acontecimentos.

Além do contexto social nigeriano, o romance traz outras importantes discussões, como o papel da mulher na sociedade, a maternidade e o machismo. Ao longo da narrativa, nos questionamos: Até onde podemos ir em prol da família e dos padrões da sociedade? Fique comigo é uma obra urgente e atemporal.

Sobre a autora

Nascida em 29 de janeiro de 1988, na cidade de Lagos, na Nigéria, Ayòbámi Adébáyo é formada e tem mestrado em literatura anglófona, na Universidade Obafami Awolowo, em Ifé.

A escritora também tem mestrado em escrita criativa pela Universidade de East Anglia. Atualmente, trabalha como editora na Saraba Magazine. Com Fique comigo, foi finalista do prêmio Baileys Women’s Prize for Fiction, em 2017.

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Em um romance que mistura autobiografia e ficção, Chimamanda Ngozi Adichie traça, de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso da Nigéria atual.


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Gabriela Mattos

Analista de comunicação em Estante Virtual
Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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