[Resenha] “Maternidade”e o desejo de não ser mãe

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Uma das autoras convidadas da Flip 2019, a canadense Sheila Heti discute o assunto com humor e originalidade

Tema de diversos livros na literatura mundial, a maternidade costuma ser tratada sob duas perspectivas distintas: a que enaltece a função de ser mãe e aquela que não romantiza essa condição. Já Maternidade, de Sheila Heti, preenche uma lacuna que havia nas obras literárias: dar voz às mulheres que não querem engravidar.

O primeiro destaque do livro é a ausência de nome para a narradora, o que cria maior identificação entre as leitoras. A história da personagem poderia ser minha, sua ou de qualquer outra mulher. Casada e perto de completar 40 anos, ela se questiona todos os dias sobre ter ou não filhos.

De forma irônica e reflexiva, a narradora mescla seus relatos pessoais – histórias com o marido, que também não deseja ser pai, e a família – com discussões sobre a nossa sociedade. É difícil identificar e diferenciar quais as partes são biográficas da autora e as de ficção, o que deixa o livro ainda mais interessante.

Com leves toques ensaísticos, o romance é corajoso ao retratar os conflitos enfrentados pelas mulheres não-mães, já que é um tema pouco abordado. A protagonista, que é uma escritora, se vê pressionada tanto pela sociedade quanto por suas amigas, com filhos e uma família dentro dos padrões sociais. Em diversos momentos, ela se vê “culpada” por não querer ser mãe e até tenta se convencer de que quer engravidar.

“Uma mulher precisa ter filhos porque ela precisa estar ocupada. (…) Querem que ela faça qualquer outra coisa. Há algo de ameaçador em uma mulher que não está ocupada com os filhos. Uma mulher assim provoca certa inquietação. O que ela vai fazer, então?”, diz a narradora em um dos trechos.

Vale destacar ainda a relação conturbada da protagonista com a própria mãe e a avó. São duas histórias que envolvem abdicação de sonhos e anseios profissionais por causa de pressões sociais impostas. Os relatos reforçam o posicionamento no qual as mulheres se encontram hoje, diante de uma sociedade machista, e reafirmam que esse modelo foi construído ao longo da história e passado entre gerações.

O egoísmo da geração de filhos é como o egoísmo de quem coloniza um país – ambos carregam o desejo de deixar algo de si no mundo e o reformar com seus valores, à sua imagem.”

Sobre a autora

Nascida em 1976, no Canadá, a escritora Sheila Heti é uma das convidadas da programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2019). É autora de oito livros de ficção e não ficção, e teve Maternidade publicado pela Companhia das Letras neste ano.

Em entrevista ao jornal El país, a escritora reforçou que esse dilema das mulheres que não querem engravidar ainda não era mostrado nos livros. “Acredito que todos os livros sobre maternidade começam quando o bebê já foi concebido ou depois de ter nascido, então vi que havia um grande espaço nunca abordado”, afirma.

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Gabriela Mattos

Redatora em Estante Virtual
Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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