Pequenos fragmentos de Mia Couto sobre infância, estórias, gatos e o feminino

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Por Beatriz Brandão*

Uma conversa intimista com um dos maiores escritores de nosso tempo, vencedor do Prêmio Neustadt e Prêmio Camões.

Ainda são poucos os escritores de origem africana conhecidos e realmente lidos no Brasil. Nos últimos anos, felizmente, a literatura feminista da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie vem despontando.

Mas, certamente, Mia Couto está há bastante tempo presente no imaginário brasileiro. Seja pelas curiosidades que suscitam seu nome no feminino (Mia), a proximidade com a língua portuguesa que nos une à Moçambique ou sua afinidade e afeto com o Brasil. Além da influência direta da literatura brasileira, nos (re) avivando Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Jorge Amado. É inegável a relação de intimidade que nos une à África de Mia.

Como amante da literatura, do continente africano e da língua portuguesa, me tornei rapidamente afeita aos escritos de Mia, seus temas me guiaram a discussões caras em minha profissão e minha atuação como antropóloga, pesquisadora da guerra que produz refugiados, e também como escritora.

O encontro e a entrevista com Mia foram de uma profundidade que revelaram sua história de vida, relação com os pais e seu passado; como suas raízes influenciaram em suas obras, sua mãe e o feminino que nele habita e transpassa para suas personagens, seu nome, seus gostos particulares, das diferenças que nos parecem contrários, suas referências literárias e muito de Moçambique. A entrevista de Mia nos faz mais perto de nós, dele e de um povo que é tão o que somos, ainda que um oceano nos distancie. Essa entrevista é uma oportunidade, para além de seus livros que enchem as livrarias, de nos sentirmos mais próximos dele, em profundidade e intimidade e também da terra mãe e formadora: Mama África.

  1. É verdade que a escolha de seu nome é devido ao amor pelos gatos?

Nós não tínhamos gatos, mas minha mãe dava de comer a gatos vadios que se juntavam ali na nossa grande varanda. Eu tinha relação muito próxima com esses bichos, comia com eles, dormia no chão em que eles se enroscavam. Eu pensava que era um deles. E por isso impus aos meus pais esse nome de “Mia” como celebração desses felinos. Olhando para trás eu acho que procedi bem porque baguncei essa fronteira de identidades que nos é tão cara e que traça um limite entre o humano e não humano. Eu amo os bichos por ser parte deles. Vivo com os meus cães (o verbo “ter” é muito equivocado) porque gosto de ser cão. Nesse sentido, ninguém tem animais. E muito menos animais de estimação.

2. Uma questão que parece estar no plano dos contrários e está muito viva em sua obra é a infância. Qual o lugar da infância? Ela pode produzir esperança, seja na guerra, seja na vida?

Eu não sei se eu sei o que é infância. Mas a minha, se ela pode ser medida em termos de tempo, foi muito feliz. Foi uma infância eterna. Isso é terrível pois nos coloca numa varanda que ficamos cegos para o tempo. Eu entendo que essa infância não termina e tenho que simplesmente me distrair do que chamam de ser adulto, que é uma coisa chata, uma punição existencial que ninguém merece. Talvez eu seja um privilegiado pois tenho condição para praticar esse luxo de uma infância sem fim. Se eu fosse um catador de lixo, ou se fosse um mineiro, talvez estivesse gastando a vida numa briga cotidiana e eu não teria esse luxo.

Eu tenho uma enorme gratidão com os meus pais, com a família, com a vida, que me permitem que eu possa ter essa irresponsabilidade de praticar a infância a tempo inteiro, Agora estou escrevendo um livro, sobre a minha cidade natal. Na preparação dessa obra eu voltei à minha cidade e fiquei um tempo lá. Foi muito bonito o encontro, como se fosse abraçado, como se o meu corpo fosse feito daquela terra, daquela terra, daquele céu. E encontrei um dos momentos mais felizes, as pessoas me paravam muito na rua e era como se reencontrassem um filho. E diziam espantados: “voltou”. Encontrei um homem mais velho que estava com o neto na praça e ele estava emocionado e queria dizer ao neto quem eu era e o neto olhava para mim como um estranho sem nome e sem história. O velho disse ao neto: “esse escritor ajuda-nos a ser Moçambique. E depois, virando-se para mim: “Obrigado a você por ser um pouco de todos nós”. Fiquei muito comovido.

Se o escritor tem um sonho é ele poder ser outros e, de fato, Moçambique é bom para isso, as pessoas estão como à porta de si mesmos a ver se se descobrem nos outros que passam. Me lembro de uma coisa que me aconteceu há cerca de 25 anos. Primeira vez que conheci o Gilberto Gil, o conheci como secretário da cultura na Bahia e, obviamente, era um homem popularíssimo, para atravessar uma rua demorava uma eternidade. E uma coisa que achei realmente comovente é que ele estava presente e verdadeiro para cada pessoa que o parava. Não havia nada que se parecesse com a relação entre ídolo e fã, era uma coisa verdadeira, ele estava todo ele ali.

3. No romance Terra Sonâmbula, Farida tem papel norteador e articulador, ainda que sejam mais reconhecidos os personagens de Muidinga, Tuahir e Kindzu como principais. No primeiro livro (Mulheres de cinzas) da trilogia “As areias do imperador”, Imani já assume o protagonismo feminino em todo livro, ela que conta a história. Qual o sentido da mulher dentro sua obra?

Fui tomando consciência de quais eram as minhas raízes, de onde vinha a minha voz e eu percebi que não vinha de outros livros, não vinha de outros escritores, vinha da minha casa, vinha da minha mãe, em particular.

Ela criava histórias. Meu pai era poeta e minha mãe uma contadora de histórias. Sou produto de uma união muito rica. Os meus pais não apenas me contavam histórias. Eles se convertiam em histórias. Sou filho de imigrantes e nunca conheci os meus avós e nada que simbolizasse um passado que me antecedeu. E eu precisava dessa ligação, precisava criar  um sentido de eternidade. Minha mãe sabia dessa carência e ela se convertia em avó, em avô, tio, tia. Ela era toda uma família que nunca tive. Nesse processo de invenção ela foi a linha, a agulha e a costura desse tecido que embrulhava a minha existência.

Na cozinha com as vizinhas e amigas a minha mãe convertia esse lugar num palco, numa fábrica de histórias e fofocas, onde o mundo todo se encenava. Mas era tudo aquilo era dito num sussurro, era uma música que me cativava. Foi na cozinha que me fiz escritor. Mais tarde quando eu tive que enfrentar a verdade dos personagens femininos dos meus livros eu regressei a esse lugar antigo. Sou o produto de uma certa geração, na minha época ser homem implicava exibir sem descanso uma espécie de passaporte que provasse a minha masculinidade.

Fui educado a rejeitar uma sensibilidade que se acreditava ser “feminina”. E isso não me ajudava a criar personagens femininos que surgissem com verdade, com alma. E eu pensava “como vou resolver isso?”. A resposta não surgiu como uma solução técnica, de um qualquer procedimento como por exemplo falar com muitas mulheres, ver como elas pensavam. Ao invés disso, fui procurar essa mulher que estava dentro de mim, que resista a essa “lavagem” de sentimentos. E tudo isso me chegava pela voz da minha mãe.


4. Mia, seus livros suscitam muitas perguntas e em sua trilogia me perguntei uma coisa, do que os guerreiros têm medo?

Bom, acho que eles têm medo de si mesmos em primeiro lugar. Há um momento em que o guerreiro é convidado a soltar seus próprios demônios e ele não sabe onde esse processo vai parar, pois esses demônios foram criados para tomar posse dele, não há limite e ele deixou de comandar a si mesmo.

Acho que esse é o maior medo de um guerreiro, o medo de si próprio. Se você perguntar como se diz soldado, não existe uma palavra para isso, só uma palavra chamada masodia, mas masodia vem do inglês, então é uma palavra tomada de empréstimo, uma língua europeia. Mas a ideia de algum guerreiro, no sentido profissional, aquele que recebe como soldo, está ausente aqui.

O guerreiro é uma espécie de estatuto temporário, para muitas das nossas culturas não se é guerreiro como se é nobre ou plebeu, não se herda a condição de guerreiro uma espécie de condição dinástica.


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