Com bom humor, Liudmila Petruchévskaia relembra memórias e canta na Flip 2018

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Na última mesa de sábado, a autora de “Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha” contou que passou fome na infância

Principal autora russa contemporânea, Liudmila Petruchévskaia empolgou o público na noite deste sábado, 28, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2018). Ela contou com a ajuda do filho, Fiódor, para traduzir as perguntas da mediadora portuguesa Anabela Mota. Mesmo com alguns problemas de tradução, a escritora, de 80 anos, manteve o bom humor e respondeu as perguntas de forma rápida, como se fosse um talk-show.

Liudmila relembrou memórias do passado e disse que passou fome na infância. “Eu tinha três anos quando começou a Segunda Guerra Mundial. Três pessoas foram assassinadas na nossa família e passamos fome. Eu era uma menininha que ficou pedindo esmola. Não foram anos ruins, me ensinaram muita coisa. Aprendi a fugir, mas não aprendi a roubar. Isso não. Até hoje não sei roubar”, afirmou.

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A discussão sobre literatura foi deixada em segundo plano e a mediadora manteve o estilo talk-show. Questionada sobre os medos da infância, Liudmila disse que tinha medo de tudo, já que vivia em um “sanatório de tuberculosos”. “As crianças não gostavam de mim. Eu vinha da rua. Eu sofria bullying, podiam me machucar. Eu tinha uma única arma nas mãos: eu criava poesias. E sobrevivi por causa da influência da literatura”, destacou. No fim da mesa, a autora russa cantou três músicas e foi muito aplaudida pela plateia.

Sobre o livro

Considerada herdeira de Edgar Allan Poe e Gogol, Liudmila Petruchévskaia combina o contexto soviético em que produziu grande parte de sua obra com uma realidade povoada por assombrações, pesadelos, acontecimentos macabros e personagens sinistras. O resultado são histórias sobrenaturais que retomam a tradição dos contos folclóricos, dotadas de um humor contemporâneo e de uma carga política.

Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha

Racismo em debate

Na tarde de sábado, 28, o escritor Geovani Martins, de O sol na cabeça, e o americano Colson Whitehead, vencedor do Prêmio Pulitzer, dividiram a mesa e discutiram sobre questões raciais e preconceito. Durante a conversa, Whitehead chamou o presidente dos Estados Unidos de racista e afirmou que foi chocante ele ter ganhado a eleição após Barack Obama.

Underground Railroad

Em relação à literatura, Geovani se mostrou feliz em voltar à Flip já com o livro materializado. O autor contou que sempre escreveu, principalmente na Internet, e falou sobre seu processo de criação em O sol na cabeça. “Toda história tem seu ritmo e o escritor que dá esse ritmo. Eu narro situações psicológicas no livro, então a urgência se repete porque está dentro da cabeça dos personagens. A narrativa acompanha o processo mental deles”, explicou.

Geovani lembrou ainda que começou no meio literário com crônicas e pretende voltar a escrever textos desse gênero. “Foi o primeiro gênero que eu me senti mais confortável e estou ansioso para retomar esse exercício. Nas crônicas, escrevemos coisas que podem passar batido no nosso dia a dia. Ser cronista nesse mundo é um grande desafio”, completou.

O sol na cabeça

Destaques na Casa Philos

O quarto dia na Casa Philos também foi de casa cheia. Entre os destaques está a mesa de Hamilton Borges, Paulo Sabino e mediação de Aline Maia. Os autores discutiram sobre centralidades periféricas e fizeram reflexões sobre a literatura negra contemporânea. “Não podemos aceitar os nomes que nos foram dados. O negro está no centro e eu acredito é em uma literatura de combate”, disse Hamilton.

Hamilton Borges e Paulo Sabino na Casa Philos - Flip 2018

Em seguida, a jornalista Natália Figueiredo, responsável pelo Estante Blogparticipou de uma mesa sobre revistas literárias e linguagens do contemporâneo, com Rodrigo Novaes, da Revista Gueto, Arthur Lungov, da Lavoura, e Yassu Noguchi, do Plástico Bolha. Na ocasião, houve ainda o lançamento da segunda edição da Revista Philos.

Natália explicou que o espaço do blog é utilizado para promover a diversidade literária e que não há uma centralização do eixo Rio-São Paulo. “O local favorece também grupos minoritários. Vale lembrar que uma mídia não exclui a outra. O Netflix, por exemplo, não é inimigo da leitura. Pode, inclusive, garantir muita visibilidade para os autores que tenham a obra adaptada”, analisou.

Rodrigo enfatizou a importância dos blogs e revistas literárias online independentes. “Há muita coisa sendo feita. Há mais de 15 anos, esses sites fazem um trabalho muito bom”, completou.

Já Arthur lembrou que a Revista Lavoura utilizava um edital para curadoria da revista. No entanto, eles perceberam que apenas o edital não garantia a diversidade que queriam promover. “Por isso, hoje há uma curadoria pessoal para que isso seja ampliado e que os autores que participem”, contou.

Gabriela Mattos

Redatora em Estante Virtual
Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.
Gabriela Mattos
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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