Selva Almada: “Todas nós mulheres vivas temos a obrigação de dar voz a quem não tem mais”

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Na Flip 2018, autora de “Garotas mortas” puxa a responsabilidade para que casos de feminicídio não sejam esquecidos.

Enquanto a Argentina fervilha em meio às manifestações e a legalização do aborto no congresso, a escritora argentina, Selva Almada, joga luz a três assassinatos ocorridos a quase 40 anos – quando a palavra feminicídio ainda nem existia. Mas ainda sem punição.

Dedicado à memória de Andrea, María Luisa e Sarita, o livro “Garotas mortas” mostra que a situação não mudou com o tempo. Foram três assassinatos entre centenas que não são suficientes para estampar as manchetes dos jornais, mobilizar a cobertura dos canais de TV ou ainda romper com o questionamento sobre a vida privada das vítimas. “Como se a questão fosse buscar um argumento para justificar o assassinato”.

Destaque na literatura contemporânea latino-americana, Selva Almada aos 45 anos tem 9 livros publicados. No Brasil, os títulos O Vento que Arrasa, de 2015, e Garotas Mortas, de 2018. Em entrevista, a autora revela que os crimes foram muito marcantes para ela, principalmente da Andrea, por se lembrar do caso quando ainda era criança. “Eu, claro, cheguei a imaginar que poderíamos descobrir algum dado que reabrisse o caso, só que o mais importante era dar luz a essa história para que fosse relembrada. Com o tempo as pessoas vão esquecendo dela e isso é muito esquisito. Em um local tão pequeno e uma morte tão brutal”, revela.

A escritora que não tinha uma história política ou feminista, encontrou na literatura seu local de denúncia e manifesto ao mesclar ficção com não-ficção. Selva entrevistou pessoas próximas às vítimas, visitou os locais e buscou notícias da época para entender como os casos haviam sido mostrados e reapresentá-los no livro. “Era muito triste que alguém tenha matado essas garotas. Mas a justiça as matou de novo não resolvendo o caso e a sociedade se esquecendo delas”, completa.

selva almada garotas mortas

Nem uma a menos

Na quinta-feira (26), a escritora argentina juntou-se a filósofa Djamila Ribeiro, autora de “Quem tem medo do feminismo negro” na mesa Amada Vida da Flip 2018, para conversar sobre formas de fazer literatura e resistir à violência cotidiana.

“Essas são situações e medos femininos que nenhum homem consegue experimentar e que mostram a vulnerabilidade de nossos corpos. Não estamos seguras em lugar nenhum”, diz Selva. Djamila completa explicando a necessidade de pensar as especificidades na luta feminista. “Não é uma questão de dividir, mas a garantia do direito básico à vida. Desde que a Lei Maria da Penha completou 10 anos, foram reduzidas em 10% a morte de mulheres brancas; as mortes de mulheres negras aumentaram”, lamenta.

Para as autoras, com pequenos passos começamos a mudar a percepção de casos brutais que eram naturalizados e que agora recebem novas punições e canais de denúncia. Começa a desaparecer o conceito do tarado – uma figura desconhecida, para pensar e desconstruir a sociedade machista e patriarcal. “Todas nós mulheres que estamos vivas, temos responsabilidade de dar voz a quem não tem mais. Para que nenhum crime seja esquecido”, aponta Selva. Djamila relembra o caso da vereadora Marielle Franco há mais de 100 dias sem resposta. “Não saber até hoje o que aconteceu com a Marielle comprova o racismo institucional”, finaliza.

djamila ribeiro quem tem medo do feminismo negro

Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.
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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.

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