Caminhos da literatura sob o olhar de João Anzanello Carrascoza

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Premiado escritor brasileiro é um dos destaques da Casa Philos na Flip 2018. Em entrevista, autor fala sobre literatura e processo criativo

A rotina do escritor João Anzanello Carrascoza se repete todos os dias: ele escreve um pouco (e devagar) pela manhã e ouve a história que vem chegando antes de levá-la à escrita. “Aprecio a sua chegada, me abro, gosto de senti-la antes de materializá-la”, reflete. Essa leveza em seu processo criativo é repassada aos seus livros. Com uma linguagem fluida e poética, as obras do autor são aclamadas pela crítica e premiadas no meio literário. Entre os principais títulos estão a Trilogia do adeusAquela água toda, vencedora do Prêmio APCA, em 2012.

Carrascoza é um dos destaques da Casa Philos durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2018). O local, organizado pela Revista Philos em parceria com a Estante Virtual, vai promover debates sobre o tema “Escrevendo nas margens: visibilidades e visualidades”.

O autor participará da discussão “Caminhos da literatura: entre a academia, a trajetória editorial e o reconhecimento”, ao lado de Estevão Azevedo, Volnei Canônica e mediação de André Balbo, no dia 28 de julho. “Fiquei feliz pelo convite, por acreditar que os debates vão nos a levar a novas percepções”, destaca.

Literatura e processo criativo

A literatura faz parte da vida de Carrascoza desde a infância, quando foi alfabetizado na cidade de Cravinhos, em São Paulo, onde nasceu. Para ele, todo leitor também é um escritor que “escreve” em si as histórias que lê. “A literatura é um fazer-se que se faz em mim quando eu leio, e um fazer meu que se faz no leitor quando ele está lendo minhas histórias”, afirma o autor, acrescentando que suas influências literárias são os poetas e prosadores cujas obras são marcadas pelo lirismo.

Livros são rios, cabe ao leitor se molhar nas águas que dão vau, tanto quanto mergulhar em suas águas profundas”.

Uma das narrativas mais marcantes na literatura de Carrascoza é o conto, como nos livros O volume do silêncioDias rarosAmores mínimos, por “permitir flagrar a multiplicidade de situações que rege a vida”. Já no romance, o escritor se destaca pela própria Trilogia do adeus, que é dividida nos títulos Caderno de um ausente, vencedor do Prêmio Jabuti, Menina escrevendo com paiA pele da terra.

“Enquanto o romance se desdobra num horizonte, abrindo-se aos poucos, e longamente, o conto se funda na verticalidade, descendo a uma dimensão pontual e subterrânea. O desafio de escrever contos está em sintetizar brevemente (mas com densidade) um mundo inteiro”, explica o escritor, que também é formado em Publicidade e trabalha como professor universitário.

Além dos contos e romances, Carrascoza também é reconhecido pela literatura infantojuvenil, com os títulos O homem que lia pessoasPrendedor de sonhosAquela água toda. No entanto, o autor reforça que não pensa se a história é para criança, jovem ou adulto. Ele acredita que qualquer obra deve estar aberta ao interesse do leitor.

Qual é o seu livro favorito de Carrascoza? Preparamos uma lista com nove obras do autor. Ficou curioso? Veja a nossa seleção completa!


Trilogia do adeus

Os três romances fazem uma panorama que se estende por meio do tempo para falar das relações das famílias. No primeiro livro, Caderno de um ausente, o pai João escreve uma longa carta para a filha recém-nascida, Beatriz, para o caso de não estar presente no futuro dela. No segundo, Menina escrevendo com pai, é a filha quem responde e narra o relacionamento entre os dois. Já no último volume, A pele da terra, o irmão de Bia narra sua relação com o próprio filho.

Carrascoza conta que a personagem Beatriz precisava se manifestar em outro volume da saga. “Senti que a voz de Beatriz começou a se altear e, então, escrevi Menina escrevendo com pai. Na elaboração desse segundo volume, a figura de Mateus se consolida, e, como ele pertencia ao mesmo núcleo familiar, concluí que a versão dele pedia um terceiro volume. Quanto à autoficção, acredito que não há nenhum livro de ficção sem elementos transfigurados da experiência do autor”, explica.

Trilogia do adeus, de João Anzanello Carrascoza


Aos 7 e aos 40

Aos 7 e aos 40 é o primeiro romance de Carrascoza. O livro apresenta recortes cotidianos da vida do protagonista aos sete e aos 40 anos. Entre os acontecimentos marcantes estão o roubo do pássaro do vizinho e as partidas de futebol disputadas com o irmão. A obra traz as narrativas da infância na parte superior da página enquanto as da vida adulta se encontram na inferior, acentuando a dualidade presente na obra. 

Aos 7 e aos 40, de João Anzanello Carrascoza


Aquela água toda

Aquela água toda reúne 11 histórias comoventes que narram as experiências da vida, como o primeiro amor, as férias na praia ou a traição de um amigo. As ilustrações de Leya Mira Brander estão impressas em um caderno especial em papel gordura. A transparência permite a sobreposição das imagens, que se acumulam em uma referência às experiências que compõem a vida.

Aquela água toda, de João Anzanello Carrascoza


Diário das coincidências

Todo mundo tem uma coincidência para contar. O Diário das coincidências é permeado por histórias, vividas por um personagem que, por vezes, se confunde com o próprio autor. Muitos relatos foram coletados por meio de um site, no qual os leitores podiam escrever. Carrascoza lembra que escrever essa obra foi um desafio diferente.

“Marcelo Ferroni, da editora Alfaguara, sugeriu que fizéssemos um site, chamando os internautas para contarem também episódios de “coincidências”. Caso as contribuições fossem inusitadas, eu poderia reescrevê-las e inseri-las no meu conjunto. Escolhemos cinco de mais de oitenta narrativas recebidas, e elas eram de fato extraordinárias”, lembra.

Diário das coincidências, de João Anzanello Carrascoza


Meu amigo João

Em Meu amigo João, o autor João Anzanello Carrascoza reúne oito contos sensíveis e bem-humorados sobre diferentes assuntos, como amizade, solidariedade, ingratidão, adolescência, estudos, carreira, família, convivência, a vida rural e urbana e todo tipo de perdas.

Meu amigo João, de João Anzanello Carrascoza


A evolução do texto publicitário

A lista também não poderia deixar de fora a obra de Carrascoza relacionada à formação de publicitário. Em A evolução do texto publicitário, o autor analisa quase cem anúncios da mídia impressa brasileira desde o século XIX e faz um estudo minucioso das publicidades e de tudo que se relaciona ao seu código linguístico. Ele traça ainda um paralelo entre as associações semânticas encontradas na literatura e as estruturas do texto publicitário.

A evolução do texto publicitário, de João Anzanello Carrascoza


Histórias para sonhar acordado

Histórias para sonhar acordado foi escrito baseado nos relatos do pai do próprio autor João Anzanello Carrascoza. Ele sempre trazia boas histórias após suas viagens, que eram como pedras preciosas encravadas no coração. Histórias que só oferecia à cama, quando os punha para dormir. Os irmãos de Carrascoza dormiam logo, mas ele não. As histórias alvoroçavam seu espírito aventureiro, aqueles mundos que ele em tantas noites construía àquela hora tardia, imóvel na penumbra, diante dele.

Histórias para sonhar acordado


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Gabriela Mattos

Redatora em Estante Virtual
Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.
Gabriela Mattos
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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