Nei Lopes e a maior visibilidade da cultura africana

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Estudos ganharam força nos últimos anos. Para entender melhor sobre o assunto, fizemos uma lista com os principais livros do escritor carioca

Por séculos, a cultura africana foi contada sob o olhar dos colonizadores europeus. Escravizados, os negros eram silenciados e usurpados de contar a própria história. O passado escravocrata deixou rastros e, até hoje, os negros lutam contra o racismo e reivindicam mais espaço na sociedade. Com isso, nos últimos anos, os estudos africanos ganharam mais força. No Brasil, um dos principais nomes da pesquisa sobre o assunto é o escritor Nei Lopes.

Nascido em Irajá, no dia 9 de maio de 1942, ele é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No entanto, logo abandonou os escritórios de advocacia e começou a frequentar quadras e terreiros. Destacou-se como sambista, principalmente pela parceria com Wilson Moreira, e compositor das escolas de samba Vila Isabel e Acadêmicos do Salgueiro.

Após a morte de um filho, em 1981, o escritor passou a se dedicar a livros sobre a cultura e a diáspora africana. São mais de 20 obras publicadas sobre o assunto. O primeiro título foi o Novo dicionário banto do Brasil, em 2003. Outros livros de destaque de Nei Lopes são a Enciclopédia brasileira da diáspora africanaA lua triste descambaDicionário da história social do sambaPoétnica.

Cultura africana no Brasil

A cultura africana influenciou diretamente a formação cultural brasileira, seja na religião, com o candomblé e a umbanda; na gastronomia, com os temperos, o vatapá e o acarajé; na dança e nas lutas, com a capoeira. Na música não foi diferente: o samba também recebeu interferências africanas e, por isso, foi marginalizado na sociedade.

Esse estilo musical teve origem nos antigos batuques trazidos pelos escravos para o Brasil, que normalmente estavam associados a elementos religiosos. Entre os séculos XIX e XX, o samba tornou-se o gênero musical dominante nos subúrbios e nos morros do Rio de Janeiro. Outros estilos que também receberam influências africanas são o choro e o maxixe.

Estudos africanos no mundo

Mas não é só no Brasil que a cultura africana ganhou mais visibilidade nos últimos anos. Em junho, pesquisadores de Gana fundaram o site AfricArxiv, que reúne artigos de todas as áreas e idiomas africanos. Ao todo, 12 voluntários administram a publicação e são responsáveis por avaliar se o conteúdo está de acordo com o objetivo do serviço.

A plataforma utiliza o software Open Science Framework, que permite o compartilhamento dos artigos entre os pesquisadores. Outro objetivo da iniciativa é abrir permitir a divulgação dos trabalhos acadêmicos de forma gratuita, já que normalmente as editoras especializadas na área cobram preços altos para a publicação dos textos.

Quer entender melhor sobre o assunto? Selecionamos os sete principais livros de Nei Lopes. Veja a lista completa!


Dicionário da história social do samba, com Luiz Antonio Simas

Este é o primeiro dicionário sobre a história do samba no Brasil. Nesta obra pioneira, Nei Lopes e o historiador Luiz Antonio Simas inscrevem o valor da negritude e da história dos negros na criação e fixação do samba, além da contraditória inserção dessa cultura musical na sociedade de consumo. O dicionário descreve conceitos, reconstrói a memória cultural do país e destaca nomes fundamentais que fizeram história, como cantores, dançarinos, diretores e compositores.

Dicionário da história social do samba


Poétnica

Poétnica é um livro ideal para quem gosta de poesia. Nei Lopes publicou seus primeiros poemas em jornais na década de 1960 e depois na Revista Civilização Brasileira. Esta obra reúne toda a poesia do autor, entre os anos de 1966 e 2013No entanto, o livro exclui a porção cancionista do artista, materializada em mais de 300 títulos tornados públicos, desde 1972, nas vozes de intérpretes da música popular brasileira.

Poétnica, de Nei Lopes


Dicionário de história da África, com José Revair Macedo

Em Dicionário de história da África, Nei Lopes e José Revair Marcedo colocam a África como centro e sujeito dos acontecimentos, fugindo das abordagens convencionais sobre o assunto. A obra reúne 1,2 mil verbetes e uma síntese cronológica dos principais acontecimentos no continente africano, entre os séculos VII e XVI. Os autores retratam também o embate entre as ideias e os interesses do islã, do cristianismo e da religião tradicional.

Dicionário de História da África


20 contos e uns trocados

Em 20 contos e uns trocados, Nei Lopes concilia o espírito popular dos subúrbios do Rio, com uma linguagem oral dos moradores, com a qualidade estética de uma grande obra literária. Com a fluência de um mestre do samba, o autor dá visibilidade ao indivíduo negro, que vive o cotidiano das comunidades humildes e marginalizadas da cidade.

20 contos e uns trocados, de Nei Lopes


A lua triste descamba

O samba e o subúrbio carioca são os principais personagens do romance A lua triste descamba. No livro, o autor retrata diálogos do dia a dia, com uma linguagem coloquial, que muitas vezes é vista como errada. É a fala de cariocas da primeira metade do século XX, moradores dos subúrbios, frequentemente iletrados ou com baixa escolaridade. Nanal, Isaura, Arnô, Lelinho e Vanda serão alguns dos mestres de cerimônia nessa viagem ao coração da Cidade Maravilhosa. A obra mostra também as interferências e transformações que o urbanismo produziu no cotidiano social carioca daquela época.

A lua triste descamba, Nei Lopes


Novo dicionário banto do Brasil

Os africanos de origem banto foram fundamentais na história cultural brasileira nos três séculos de escravidão. Ao contrário das outras tribos, eles se espalharam por todas as regiões do país. Publicado em 1999, o Novo dicionário banto do Brasil é considerado uma obra de referência pioneira na investigação dos idiomas da África. Nei Lopes dá visibilidade à presença africana na formação do português no país e suaviza preconceitos que, ainda hoje, tentam mascarar esse fato. 

 

Novo dicionário banto do Brasil


Mandingas da mulata velha na cidade nova

Mandingas da mulata velha na cidade nova narra um lugar e um tempo mitológicos no Rio. Mostra que foram as pessoas de Cidade Nova, na Pequena África, que instituíram o Rio de Janeiro moderno, entre 1870 e 1930. O romance fala de figuras históricas como João Cândido, Sinhô, Assumano Mina do Brasil, André Rebouças, dom Obá e José do Patrocínio. Nei Lopes conta também sobre os ranchos carnavalescos, os negros altivos, a Abolição e a República. É possível perceber o reflexo ancestral da tia Ciata na protagonista.

Mandingas da mulata velha na cidade nova


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Gabriela Mattos
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Gabriela Mattos

Gabriela é jornalista, editora do Estante Blog e foi repórter em um jornal carioca. Viciada em comprar livros, é apaixonada por literatura contemporânea e jornalismo literário.

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