A singularidade da poesia de Hilda Hilst

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Considerada como uma das escritoras mais importantes do século XX, Hilda Hilst completaria 90 anos neste 21 de abril.

Nascida em 21 de abril de 1930, na cidade de Jaú, em São Paulo, Hilda Hilst foi poeta, ficcionista, cronista e dramaturga. Em entrevistas, a escritora revelou por diversas vezes que, desde a infância, ela só queria saber de escrever. Além disso, Hilda destacava que, o encontro com a poesia representou a ela um encontro consigo mesma.

A partir de uma escrita lúcida, romântica e, por vezes, crítica, Hilda falava sobre a condição humana, com excepcional qualidade literária e irreverência. Não à toa, a escritora foi considerada, pela crítica especializada, uma da maiores escritoras de língua portuguesa do século XX.

Hilda iniciou sua produção literária em São Paulo, com o livro de poemas Presságio, publicado em 1950. Segundo o Instituto Hilda Hilst, em 1965, ela mudou-se para Campinas e iniciou a construção da Casa do Sol – um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema.


Sonetos Que Não São

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”


Hilda produziu mais de 40 títulos, entre poesia, ficção e teatro, ganhando traduções em países como Itália, França, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Argentina. Em 2004, aos 74 anos, Hilda se foi. Nos deixando, mas eternizando sua obra.

Neste ano, a jornalista Paula Dip conseguiu estender ainda mais as lembranças da escritora ao publicar o livro: Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst (José Olympio), com as cartas trocadas pelos autores que foram recuperadas. Caio foi um dos muitos pupilos da escritora, mas que também teria inspirado Hilda.

O escritor passou uma série de temporadas na Casa do Sol, entre 1969 e 1971. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, magia, discos voadores e literatura. Confira sua extensa obra:


Cantares, de Hilda Hilst

Cantares reúne dois livros de poemas, publicados, respectivamente, em 1983 e 1995; ”Cantares de Perda e Predileção” e ”Cantares do Sem nome e de Partidas”. Obras breves, ambas constituem um dos instantes mais densos do lirismo hilstiano, que aqui revisita o tema do amor, dentro da melhor tradição da língua portuguesa.

cantares


Ficções, de Hilda Hilst

Os textos em prosa de Hilda Hilst têm todos o ritmo vagaroso de sementes. Suas palavras, frases, conceitos germinam atemporalmente na retina e na percepção de quem os lê. No ano de 1977 é publicado o livro Ficções, que recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), como “Melhor Livro do Ano”.

Ficções, de Hilda Hilst


Cartas de um sedutor, Hilda Hilst

Junto com A Obscena Senhora D e O Caderno Rosa de Lori Lambi, Cartas de um Sedutor compõe a trilogia erótico-pornográfica de Hilda Hilst. Em Cartas de um Sedutor, a autora descreve o cotidiano de Karl, um homem rico, amoral e culto, que busca a explicação para sua incompreensão da vida através do sexo. Karl escreve e envia vinte cartas provocativas a Cordélia, sua casta irmã. Os textos das cartas se misturam à vida de Stamatius, um poeta que encontra no lixo os manuscritos de Karl. Após a primeira leitura, percebe-se que ambos – Karl e Stamatius – são a mesma pessoa em tempos e condições diversos, mas com posturas diferentes diante dos mesmos questionamentos. O contraponto entre um e outro é o mote para uma obra de grandeza ímpar e absolutamente humana no seu sentido mais divino. A história do livro. Cartas de um Sedutor foi lançado originalmente em 1991.

Cartas de um sedutor, Hilda Hilst


Fluxo-floema, de Hilda Hilst

Fluxo-Floema, publicado originalmente em 1970 pela Editora Perspectiva, é o primeiro livro em prosa de Hilda Hilst, após a sistematização de sua primeira poesia (no volume ‘Poesia’, de 1967, da Editora Sal) e os anos de produção intensa para o teatro (1967-1970). Não há nele, contudo, qualquer embaraço de principiante. Trata-se, ao contrário, de um dos seus livros mais densos e radicais. Constitui-se de cinco textos de difícil enquadramento em qualquer gênero tradicional da prosa, dado que quase não há narrativa neles. Em apenas um desses textos, a ação propriamente dita tem alguma relevância, mas só porque ela é desdobrada vertiginosamente em metalinguagem e em metafísica.


Pornô chic, de Hilda Hilst

A Trilogia Obsena é formada por ‘O caderno rosa de Lori Lamby’, ‘Contos d’escárnio – textos grotescos’, ‘Cartas de um sedutor’ e ao ‘livro de poemas Bufólicas’. Pornô chic reúne os quatro títulos, ilustrados, traz o inédito Fragmento pornográfico rural e fortuna crítica que aborda a polêmica fase erótica de Hilst. O caderno rosa de Lori Lamby e Bufólicas recuperam as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar para as primeiras edições. Para ilustrar Contos d’escárnio e Cartas de um sedutor foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram uma abordagem contemporânea ao pornô de Hilst. Considerados pela autora uma ‘experiência radical e divertida’, estes livros misturam humor, críticas à sociedade, todo tipo de práticas sexuais e referências a autores célebres pelo erotismo como Henry Miller e Georges Bataille. A leitura de Pornô Chic revela o quanto Hilst pode ser irônica, debochada e divertida sem perder o refinamento. Se O caderno rosa de Lori Lamby parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho.

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Veja abaixo, a cartunista Laerte lê o poema “Filó, a Fadinha Lésbica”, texto de Hilda Hilst publicado no livro Bufólicas (1992):

E você, qual a sua obra preferida da autora? Comente e aumente nossa lista 🙂

Comentários

Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, é editora do Estante Blog e mantém o blog de viagens Nat no Mundo.

Um comentário em “A singularidade da poesia de Hilda Hilst

  • 02.04.2017 a 2:54 am
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    Adorei o site, parabens!!

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