O cotidiano espetacular de Clarice Lispector

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Clarice Lispector nos deixou há exatos 40 anos e, em 2018, completaria 98 anos no dia 10 de dezembro. Saiba mais!

Nascida na Ucrânia, Clarice Lispector considerava-se pernambucana com orgulho. Sobre seu país natal, Clarice comentou: “Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo”. E foi durante sua infância no estado do Recife que a autora adquiriu grande parte de sua inspiração, que mais tarde ilustraria suas obras. Apesar de ter frequentado a faculdade de Direito, Lispector começou sua carreira trabalhando como repórter da Agência Nacional, no início dos anos 1940. No ano de 1943, casou-se com Maury Gurgel Valente, um colega da faculdade de Direito e diplomata. Além do casamento, naquele ano Clarice teve outro momento marcante: o lançamento de seu primeiro livro, Perto do coração selvagem. Em 1959, começou a escrever para a coluna Feira de utilidades, no jornal O Correio da Manhã, sob o seu famoso pseudônimo, Helen Palmer.

Só para mulheres

Clarice faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, mas pôde sentir em vida a admiração dos fãs de seus livros. Na década de 1970, era vista como uma escritora famosa, aclamada pelo público e pela crítica. No entanto, Clarice escolheu preservar-se, falando quase nada de si mesma durante as entrevistas e evitando de entrar em assuntos profundos ou complexos. O mistério por trás da figura da escritora permanece até hoje, podendo ser compreendido, às vezes, entre um verso e outro de seus contos. Somente em seus textos que Clarice se permitia a exposição de seu íntimo, o que é um paradoxo se for levado em conta a riqueza de detalhes que a escritora expressava sentimentos, sensações, pensamentos e experiências através de suas inesquecíveis personagens femininas.

O universo feminino poucas vezes foi tão bem descrito quanto através das palavras de Clarice Lispector. Nas crônicas reunidas nos livros Só para mulheres e Correio feminino, a autora compartilhava com o público dilemas rotineiros que, muitas vezes podem parecer comuns, mas tem raízes profundas na cultura e na sociedade. Não apenas nessas obras Clarice contou a história de mulheres comuns, mas extraordinárias. Em A hora da estrela, Clarice empresta um pouco de si mesma para a protagonista Macabéa, uma datilógrafa alagoana que migra para o Rio de Janeiro e começa a namorar um homem chamado Olímpico de Jesus, que não vê nela nenhuma chance de ascensão social ou algo do tipo. Levando uma vida simples e sem grandes emoções, Macabéa prendia-se a alegria que de ouvir os programas transmitidos por uma rádio relógio. Ao descobrir que estava perto da morte, a personagem guarda este segredo para si e continua vivendo uma vida solitária, mas significativa.

Clarice Lispector.

Foi desta forma, contando histórias comuns – e de pessoas aparentemente comuns – que Clarice apresentou para a literatura brasileira a grandiosidade que existe na simplicidade. Em um dos seus contos mais conhecidos, Banho de mar, a autora deixa escapar sentimentos guardados de sua infância, de momentos simples, mas que marcaram sua vida para sempre: “Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife. Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes do sol nascer. Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?”, escreveu Clarice.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.

Todos os 85 contos da autora

A editora francesa Éditions des Femmes lançou neste ano, no qual completam 40 anos da morte de Clarice Lispector, uma coleção completa de todos seus contos em um único volume. O historiador ameriano, jornalista e autor da biografia da autora, Benjamin Moser, lançou esta coletânea de contos pela primeira vez, em 2015. Segundo ele, Clarice não foi apenas pioneira na literatura brasileira, mas também mundial: “Pela primeira vez na história, você pode ler os contos de uma mulher de classe média, casada, heterossexual, com filhos e que descreve toda a sua vida (dos 19 anos até a morte). Isso não é uma novidade somente no Brasil. É algo inédito em nível mundial”, explicou o jornalista e historiador.

Neste sentido, na literatura geralmente encontramos autores como Oscar Wilde e Marcel Proust, que descreveram grande parte de suas vivências em suas obras. O diferencial de Clarice é exatamente o fato dela estar dentro de um perfil comum, como o jornalista descreveu. Além disto, a autora também sentiu na pele as dificuldades enfrentadas pelos escritores no Brasil, nas décadas de 1940 e 1950 – e que foram agravadas pelo fato de Lispector ser uma mulher, esposa e mãe: “Clarice foi descrita como uma louca, que não falava direito…Mas o machismo não era só no Brasil. Era em toda parte. Lendo resenhas publicadas na imprensa sobre livros escritos por mulheres, você sente a condescendência, o desprezo, uma coisa apavorante! O mais impressionante é ver como essas mulheres conseguiram continuar a escrever. Eu teria desistido se tivessem falado de mim assim!”, concluiu Benjamin Moser.

Com suas obras, Clarice Lispector modificou para sempre a literatura brasileira, não só com a criatividade que tinha em manipular o português culto, mas principalmente com a profundidade espetacular que narrava não apenas o seu, mas o cotidiano de todos nós. Confira seus livros!



Qual é o seu livro favorito da Clarice Lispector? Conta pra gente!


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém os seus blogs pessoais no Medium e no Wordpress: @Msmidnightlover e Missmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém os seus blogs pessoais no Medium e no Wordpress: @Msmidnightlover e Missmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.

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