O conflito existencial do ganhador do Nobel de Literatura, Kazuo Ishiguro

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O primeiro amor de Kazuo Ishiguro foi a música, mas foi através da escrita que o autor encontrou uma forma de preservar a si mesmo perante o tempo.

O tema principal dos livros de Kazuo Ishiguro é a memória – a memória afetiva, social, individual. Para o ganhador do Nobel de Literatura de 2017, a memória não se restringe apenas ao assunto central que move os personagens de seus romances, mas é também o elemento que move sua própria vida: “Escrever é a minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos”, explicou o escritor em uma entrevista em 2015.

De acordo com a Academia Sueca, Ishiguro foi escolhido como ganhador por conta da força emocional que mapeia seus romances e “que revelam o abismo da nossa ilusória sensação de conforto em relação ao mundo”, segundo o discurso oficial na premiação. Em um dos seus títulos mais famosos, O gigante enterrado, o autor narra através da história de um casal desnorteado diante das ameaças do tempo e do cotidiano, o desafio do homem de permanecer são diante das atribulações da vida. Com obras que criam um universo singular, o conflito existencial que atormenta o indivíduo desde os primórdios está intensamente presente nos livros do autor.

Nascido em Nagasaki, Japão, Kazuo Ishiguro emigrou para Inglaterra com a família ainda na infância. Durante a adolescência, o primeiro amor de Kazuo era a música – algo que continua até hoje – chegando a enviar suas composições para várias gravadoras. Após ser rejeitado por todas elas, Ishiguro dedicou-se à escrita. Em 1989, recebeu o Man Booker Prize por Vestígios do dia e passou a ser reconhecido no círculo de literatura mundial, além do livro ter se tornado uma adaptação cinematográfica de sucesso em Hollywood, estrelada pelo ator Anthony Hopkins.

A relação entre o ganhador do Nobel e a Bossa Nova

No Brasil, a editora responsável pela publicação dos livros do ganhador do Nobel é a Companhia das Letras. De acordo com Luiz Schwarcz, fundador da publicação, o anúncio de Ishiguro como ganhador do maior prêmio da literatura mundial foi mais do que merecido: “Que alegria um ser humano de tamanha generosidade ganhar o tão cobiçado prêmio – e que sorte a minha conhecê-lo de perto”, disse Schwarcz.

Durante o período em que Luiz Schwarcz, editor-chefe e fundador da Companhia das Letras, esteve com Ishiguro, sua esposa e sua agente Ann em Londres para acertar a publicação de seu primeiro livro no Brasil, as conversas do grupo giravam em torno da família de Schwarcz, que escapou dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, o goleiro da seleção brasileira da Copa do Mundo de 1070 e, mais tarde, a Bossa Nova. Além de saber a escalação do time brasileiro de 1970 de cor, Ishiguro também demonstrou conhecimento sobre a música nacional. Schwarcz enviou para ele uma cópia em inglês do livro Chega de saudade, de Ruy Castro, uma vez que Ishiguro começou a compor músicas para a cantora de jazz americana Stacey Kent – e mergulhou na Bossa Nova brasileira como inspiração. Além de Ruy Castro, Ish, como é chamado pelos amigos, conversou com o editor brasileiro sobre a obra de Lima Barreto e de Raduan Nassar.

O livro mais vendido do autor no Brasil, O gigante enterrado, teve um aumento notável de vendas nos últimos meses, em decorrência do pronunciamento do Nobel. Além disto, a Companhia das Letras relançou dois livros do autor que se encontravam esgotados, Quando éramos jovens e Noturnos, que contam com um novo projeto gráfico e com o selo de vencedor do Nobel. Para o futuro, Kazuo Ishiguro já confirmou que irá escrever mais 3 romances, todos lançados no Brasil pela Cia das Letras.

Utilizando a distopia para explicar a realidade

Em um misto de ficção científica e distopia, Não me abandone jamais é atualmente uma das obras mais aclamadas mundialmente do autor. Adaptada para o cinema em 2010, a história de desenvolve em um internato inglês que visualmente parece perfeito – o gramado que o envolve é verde como esmeralda, os internos são doces, o jardim parece daqueles existentes em sonhos e o sistema de ensino é voltado para atividades artísticas. No entanto, uma verdade inconveniente acaba com a ilusão da felicidade local: todos os alunos do internato são clones. Com a história, Ishiguro apresenta, talvez mais do que em suas outras obras, uma característica que foi essencial em sua trajetória até o Nobel: a ilusão de que o homem, individualmente ou socialmente, está conectado ao mundo.

No que diz respeito ao desejo de Ishiguro de não se perder na memória coletiva ao longo dos tempos, definitivamente o autor pode ficar tranquilo. Além do sucesso comercial e das adaptações para o cinema, sua obra já foi traduzida em mais de 28 países e o Nobel confirmou o que os leitores e críticos literários de diversos países já sabiam – a capacidade do autor de abordar pontos tão sensíveis para o homem, como os conflitos entre a memória, o tempo e a existência, unificam e atingem profundamente os leitores de idades e origens diversas, trazendo uma reflexão amarga sobre a realidade da vida, mas também necessária.

Confira as principais obras do autor!


Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro

Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de “cuidadora”. Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas. No entanto esse internato esconde uma terrível verdade: todos os “alunos” de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição. Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino – doar seus órgãos até “concluir” suas tarefas. Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, Ishiguro mostra que estes “doadores”, em tudo e por tudo são idênticos a nós e refletem a nossa existência. 

Não me abandone jamais


O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro

Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova – será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais importantes da humanidade: o amor, a guerra e a memória.

O gigante enterrado


 O desconsolado, Kazuo Ishiguro

O protagonista é uma metáfora. É assim que começa a história de um renomado pianista, Ryder, que viaja para uma pequena cidade do leste europeu para um concerto e uma conferência. Lá se vê envolvido na briga local entre o violoncelista Christoff e o maestro bêbado Brodsky e em todos os lamentos de gente que não conhece mas que lhe parece íntima. Todos desabafam frustrações e sonhos com Ryder. A viagem de Ryder é labiríntica. Ele não tem agenda, perdeu ou nunca a teve, mas corre atrás de seus compromissos, todos absurdos e inalcançáveis. O livro fala do desconsolo daqueles que vivem superficialmente os tormentos alheios e não têm tempo ou não sabem ouvir os próprios desejos – um retrato da vida atribulada do século 21.

O desconsolado


Noturnos, de Kazuo Ishiguro

O livro narra histórias tocantes e divertidas sobre o contraste entre a genialidade e as exigências cotidianas de instrumentistas e amantes da música, em lugares como Veneza, Londres e Estados Unidos. Nesta reunião de cinco narrativas, Kazuo Ishiguro deixa de lado a melancolia dos romances para dedicar-se à concisão, à leveza e ao humor. Todas essas pessoas ao redor do mundo, além do amor pela música, compartilham apenas uma coisa: são todos seres noturnos.Noturnos


Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro

O mordomo Stevens, já próximo da velhice, relembra as três décadas dedicadas à casa de um distinto nobre britânico, o lord Darlington, hoje ocupada por um milionário norte-americano. Por insistência do novo patrão, Stevens sai de férias em viagem pelo interior da Inglaterra. No caminho, recorda passagens da vida de seu antigo chefe e reflete sobre o papel dos mordomos na história da Inglaterra.

Os vestígios do dia


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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