A fluidez e o contraste da obra de Virginia Woolf e Clarice Lispector

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A profundidade de Woolf e o minimalismo de Lispector estão presentes em suas obras e em suas vidas.

Virginia Woolf foi uma das escritoras inglesas mais importantes de todos os tempos. Nascida no dia 25 de fevereiro de 1882, enxergava a vida com tamanha visceralidade que, no dia 28 de março de 1941, não resistiu e se atirou no rio Ouse, suicidando-se. Mas Virginia não apenas via a vida com bastante profundidade, ela também narrou seu ponto de vista visceral em todas as obras, mesmo que por trás de personagens inesquecíveis, como a Mrs. Dalloway. Em contrapartida, a escritora ucraniana naturalizada brasileira, Clarice Lispector, ficou conhecida do público pela simplicidade quase poética que enxergava a vida – muitas vezes o cotidiano foi narrado por Lispector de forma simplória, detalhada e com um “quê” de magia, como em Onde estivestes de noite, quando conta em uma prosa rica em detalhes as histórias de sua infância no Recife, no nordeste brasileiro.

Apesar do tom melancólico e saudosista de suas histórias, a obra de Clarice desperta um sentimento de alegria no leitor e às vezes até mesmo influencia com que ele enxergue o cotidiano com os olhos poéticos de Lispector. Virginia Woolf, por sua vez, teve um início de vida que beira à ficção. Abusada sexualmente pelo meio irmão George, Woolf tornou-se avessa ao sexo, negando a sexualidade pelo resto de sua vida. No entanto, era capaz de apaixonar-se intelectualmente e romanticamente, mas sem apelo físico e sexual. Seu pai, Leslie Stephen, forneceu o maior apoio emocional e educacional que Woolf já recebeu, mas, após a sua morte em 1904, Virginia entregou-se a melancolia: tentou se suicidar pela primeira vez, atirando-se de uma janela. Sem sucesso, continuou sua vida dedicando-se unicamente aos estudos e a leitura, já que não teve a mesma oportunidade de seus irmãos de cursar uma faculdade em Cambrigde.

Virginia Woolf em 1904.
Virginia Woolf em 1904.

O único caminho: a literatura 

Nesse aspecto, Clarice e Virginia se conectam: ambas lutaram para ter um lugar no meio literário, até então composto majoritariamente por homens, e dedicaram-se aos estudos e a leitura como poucos fizeram em suas épocas. Outra semelhança é que a morte do pai de Clarice, em 1940, a levou a dedicação completa aos estudos, quando foi morar com sua irmã mais velha e já casada.

Após viver paixões por diversas mulheres, Virginia encontrou no casamento com Leonard Woolf a oportunidade perfeita de alcançar, finalmente, a estabilidade emocional que tanto almejava, além de apoio para realizar seu sonho de tornar-se uma grande escritora. Apaixonado por Woolf, Leonard abdicou de sua carreira para ajudar a esposa na divulgação de suas obras, que serviram como benção e como uma maldição para o casamento dos dois: toda vez que recebia boas críticas, Virginia alegrava-se e abria-se para vida, o que era raro, mas quando as críticas negativas eram feitas, Woolf entrava em um estado depressivo que tornava-se quase impossível acessá-la.

Clarice Lispector
Clarice Lispector

No início de sua carreira, Clarice considerava-se “tímida e ousada” – ela costumava ir em redações de jornais dizendo: “eu tenho um conto, quer publicar?” e, basicamente, conseguia desta forma que seus contos saíssem nos periódicos. Apesar de ter cursado a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, Clarice trabalhava como jornalista e escrevia crônicas e artigos para jornais cariocas, e assim o fez por toda sua vida, mesmo depois de estabelecer-se como uma escritora renomada. Desta forma, o ponto de vista de Clarice sobre a vida era realista, mas positivo. Segundo ela, se pensarmos muito no significado de existir, podemos enlouquecer. E foi exatamente esta loucura que invadiu Virginia, deixando-a incapaz de encontrar sentido no mundo, ou nas relações humanas e em seus detalhes.

“Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos. A solução para esse absurdo que se chama ‘eu existo’, a solução é amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista” – Clarice Lispector, em “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”.

Solidão: uma faca de dois gumes

Apesar de declarar-se uma solitária, Clarice Lispector não se sentia sozinha na vida, exatamente porque não enxergava o estado de solitude como algo negativo: “Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”, escreveu em A hora da estrelaPara Woolf, a solidão a engolia e chegava mastigá-la, a ponto de fazê-la perder o controle de si mesma: “Por isso odeio espelhos que me revelam meu verdadeiro rosto. Sozinha, muitas vezes mergulho no nada. Preciso firmar meu pé fortemente, se não, caio do limite do mundo para dentro do nada. Preciso bater minha mão contra uma porta rija, para me chamar de volta ao meu corpo”, escreveu.

Entretanto, Clarice Lispector e Virginia Woolf se conectavam ao mesmo tempo que as semelhanças entre ambas diluiam, como em água. As suas visões migram de um ponto para o outro, tal como o mal e o bem, o bom e o ruim e a alegria e a tristeza dentro de todos nós. Não que Woolf e Lispector caibam dentro de um rótulo, suas obras e personalidades eram tão complexas e paradoxais quanto de qualquer outro artista genial. Clarice enxergava o cotidiano através de uma simplicidade visceral, tanto como Virginia via a vida com uma visceralidade simples – era o que era, e não era passível de mudança. No entanto, a atemporalidade do sentimento das duas escritoras era a maior certeza que existia em suas obras, e como Clarice dizia: “Só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.”

Virginia Woolf e o marido, Leonard.

A beira da terceira – e última – tentativa de suicídio, Woolf pareceu enfim encontrar a felicidade e a satisfação que tanto procurava, mesmo que a mesma não fizesse mais tanta diferença depois de tudo que havia vivido. Na carta que deixou ao seu marido, Leonard, escreveu: “Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estragando sua vida. Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos”, dizia nos versos da carta. O reconhecimento da felicidade romântica mostra que, no final das contas, Clarice Lispector e Virginia Woolf concordavam com o pensamento expresso por Clarice, quando mencionou apesar da falta de compressão da nossa existência, a única solução para vida era “amar um outro ser que, este, nós compreendemos que exista”.

Confira as principais obras das autoras!


Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector

A história de Joana — a personagem de Clarice Lispector nesta obra de estréia, marcou a ficção brasileira. A narrativa inovadora provocou frisson nos círculos literários. A técnica de Clarice Lispector funde subjetividade com objetividade, alterna os focos literários e o tempo cronológico dá lugar ao psicológico. A prosa leve discorre com fluidez nos meandros da protagonista, na sua visão de mundo e interação com os demais personagens.

Clarice Lispector


Noite e dia, de Virginia Woolf

Noite e dia, segundo romance de Virginia Woolf, foi publicado em 1919, quando ela estava com 37 anos. O livro atira o leitor dentro de uma sociedade, seus costumes, sua linguagem, num jogo de poder e contestação. Trata-se de uma trama de amor entre Katherine Hilbery e Ralph Denham – advogado, intelectual e burguês. O enredo se desenrola num estilo ao mesmo tempo sólido e puro, e segue uma linhagem da tradição inglesa de grandes novelistas como Jane Austen e Charlotte Brontë.

Noite e dia


A paixão segundo G. H. , de Clarice Lispector

“Por que sonhar se não para realizar?”, é o questionamento da obra. Muita bem escrita e de leitura agradável, a honestidade com que a autora revela seus próprios pontos fracos e o tom intimista de quem conta passagens da vida para os amigos são de extrema empatia. As duas situações críticas apresentadas – o desemprego do marido e a mudança para o Canadá – são muito interessantes e o tom positivo de quem superou várias dificuldades pela mudança de percepção e consciência é essencial até os dias de hoje.

A paixão segundo G.H


Os anos, de Virginia Woolf

Construído como um “ensaio” sobre a vida real, Os Anos, publicado em 1937, são a crônica de uma família inglesa, cujas transformações o leitor acompanha desde 1880. Nesta obra, a sociedade, ou a relação entre indivíduo e sociedade, ocupa um grande espaço.

Virginia Woolf, os anos


Uma aprendizagem Ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector

A narrativa começa com uma vírgula, como se fosse a continuação de algo já iniciado, e se encerra com dois pontos, indicando que a estória prossegue, embora não apareça no livro. Como em todas as obras de Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres é um ponto de vista feminino a respeito da vida. O livro conta, acima de tudo, a viagem empreendida por Lóri. a protagonista, em busca de si própria e do prazer sem culpa.

Clarice Lispector


Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

Toda a história do romance se passa num único dia, em junho de 1923, em que Clarissa Dalloway resolve ela mesma comprar flores para a festa que vai oferecer logo mais, à noite, em sua casa. A partir desta cena inicial, o romance segue a protagonista pelas ruas de Londres num ritmo cinematográfico, registrando suas ações, sensações e pensamentos.

mrs. dalloway


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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