O protesto através da poesia

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A FLUP – Festa Literária das Periferias, tem a programação com concurso de poesia, teatro, caça-palavras e entrevistas.

A poesia de protesto existe há bastante tempo – desde quando a chama do inconformismo foi acesa na alma humana. William Shakespeare, Walt Whitman e Arthur Rimbaud são alguns exemplos de poetas que dedicaram suas obras ao questionamento do status quo, cada um no seu tempo histórico. No contexto nacional, a Poesia Marginal foi um estilo literário que incluía nomes como Paulo Leminski e Torquato Neto, foi criada em plena ditadura militar e tornou-se um dos maiores exemplos do movimento contracultura da época.

A FLUP – Festa Literária das Periferias deste ano ocorreu no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. E, de acordo com os organizadores, é a melhor edição do evento. A razão? Além do aumento do número de dias da festa, a participação do poeta, ator, escritor e maior nome do Spoken Word mundial, Saul Williams. A obra de Williams mistura poesia e hip-hop, fazendo em suas próprias palavras “sintaxe com o ritmo”.

A FLUP – Festa Literária das Periferias, está acontecendo desde o dia 10 e vai até o dia 15 de novembro, no morro do Vidigal, Rio de Janeiro.

Saul Williams nasceu em Nova York, no dia 29 de fevereiro de 1974 – data que, segundo ele, o trouxe a sua primeira indagação: “Quem criou este calendário? Esse questionamento me levou até a religião, da religião eu cheguei ao sexo, poder, política e comecei a compreender todas as formas de controle exercidas sobre a sociedade”, comentou. No entanto, o seu talento literário só foi descoberto após a sua temporada pelo mundo do teatro. Como ator, Williams participou de filmes como o aclamado K-Pax – o caminho da luz, o qual dividiu a cena com Kevin Spacey, além de ter atuado em algumas peças da Broadway.

Saul Williams e a mediadora da conversa, Roberta Estrela D’Alva.

Em meados dos anos 90, Nova York era um protesto em forma de cidade: “As pessoas começaram a ignorar os grandes hits das rádios e passaram a consumir a música que tocava no underground”, explicou Williams. Na mesma época, a ascensão do hip-hop começava a acontecer. Com um ritmo que se assemelha à declamação de uma poesia, só que com acordes musicais por trás, as rimas e as causas que o hip-hop defendia naquele período inspiraram Saul: “Eu tentei encontrar uma forma de desequilibrar o sistema, e a poesia é perfeita para isso”, disse um dos fundadores do Poetry Slamum movimento no qual poetas recitam suas obras originais, em uma competição julgada por jurados e membros da platéia – se parecendo, em muitas formas, com as rodas de rap, onde os rappers competem por suas composições, em busca da rima perfeita.

A percepção das semelhanças entre esses dois universos levou Saul a questionar, desta vez, a necessidade de inovação na poesia: “Pensei que a poesia poderia ser atualizada, criando uma nova linguagem e encontrando uma nova forma de expressão”, explicou. Esta nova forma de expressão foi o Slam, que segundo ele é um agente poderoso quando se trata de engajamento dos jovens em relação a politica e a sociedade: “A poesia clássica sempre foi muito influenciada pelo romantismo. O Slam nos dá o espaço confortável para dizer o que passa em nossas mentes”, comentou.

Caça-palavras: a atividade mais querida pelas crianças moradoras da comunidade.

Em uma de suas obras, Saul criou uma espécie de mixtape, só que de literatura. Em suas redes sociais, pediu que seus fãs enviassem poemas escritos por eles. O autor recebeu 8 mil poemas, selecionando 100 para entrar em seu novo projeto, o Mixing Poetry. Como forma de escolher os que entrariam no livro, Saul colou todos os poemas, sem título, em sua parede, tentando assim encontrar elementos que conectassem um ao outro, culminando em uma só voz: “Eu queria fazer algo para os poetas vivos, os tantos que estão pelo mundo e não conhecemos. Juntos, queria unir todos os poemas em uma única voz”, conta Saul.

Apesar de seu envolvimento com diversas formas de expressão artística, Saul Williams defende a leitura como a única possível salvação para a sociedade, começando por ele mesmo: “Ler mudou a minha vida. Foi a única forma de me fazer viajar quando eu não podia comprar uma passagem”, refletiu. Nas palavras da mediadora da conversa, a atriz, pesquisadora e ativista Roberta Estrela D’alva, “os poetas orais expressam o que a sociedade está sentindo, dando voz aos anseios de uma comunidade específica”.

Neste caso, os poetas orais seriam aqueles chamados slammers, que declamam em alto e bom som o seu protesto dividido em versos e transformado em poesia – mas que em nada são diferentes daqueles que colocam no papel seus sentimentos mais profundos, medos, angústias, paixões e desejos, utilizando pena e tinta ou os teclados dos smartphones e computadores. A vocação poética é atemporal e a poesia, assim como outras formas de arte, é capaz de atravessar gerações.

Confira abaixo algumas obras relacionadas ao tema!


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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