[Resenha] O Sol de Biafra volta a brilhar pelas palavras de Chimamanda Adichie

(3.2 Estrelas - 5 Votos)

Meio sol amarelo retoma conflito da década de 1960 com viés humano e ainda bastante atual.

Chimamanda é, de fato, um fenômeno literário e essa certeza se confirma a cada romance que encerramos. Meu pouco ou quase nulo conhecimento sobre o continente africano e, principalmente, a Nigéria vai ganhando contornos e familiaridade a cada livro que abro da autora.

Em Meio sol amarelo, romance de 2006 – vencedor do prêmio Orange Prize de 2007 para Ficção e adaptado para o cinema, Chimamanda Ngozi Adichie narra a vida de uma série de personagens em meio a guerra civil na Nigéria. O título faz referência a bandeira da República de Biafra, que tem meio sol desenhada e a tentativa de independência em 1967, que gerou uma guerra com mais de 1 milhão de mortos e uma legião de homens, mulheres e crianças famintas. O estado independente do povo igbo existiu por três anos, até sua dissolução, em 1970.

A história é contada pela visão de três personagens Ugwu, um menino de aldeia que vai para Nsukka trabalhar na casa do revolucionário Odenigbo – o Patrão; Olanna, jovem da alta sociedade nigeriana que se torna professora universitária e vai morar com Odenigbo e Richard, um jornalista britânico com aspirações de ser escritor e que chega a África apaixonado pela arte Igbo-Ukwu e em seguida por Kainene, irmã gêmea não idêntica de Olanna.

Não chamaria apenas esses personagens de principais, pois a riqueza de detalhes em tantos outros como Kainene, também são fundamentais durante o desenrolar da trama. Mas acredito que, justamente, por conta do perfil irônico e imprevisível da personagem nunca lemos a história pelo viés de Kainene. No enredo, não há heróis, mas a complexa história de sonhos, experiências e dores humanas. Os conflitos entre as irmãs – bastante diferentes – caminham inversamente aos conflitos do país e somente no caos da tragédia que elas conseguem permanecer unidas. Acompanhamos também o crescimento de Ugwu, que chega a casa de Odenigbo aos treze anos para ser seu criado e lá tem a oportunidade de estudar nas horas vagas e aprender com os livros do patrão sobre ideias que ainda não faziam parte de seu mundo.

O Patrão voltou com uma folha grande de papel que desdobrou e pôs sobre a mesa de jantar, empurrando para um lado os livros e as revistas. Apontou com a caneta. “Este aqui é o mundo, se bem que as pessoas que desenharam o mapa resolveram pôr a terra deles em cima e a nossa, embaixo. Mas não existe um em cima e um embaixo, entende?”

A construção da estrutura narrativa não é linear. Viajamos do início da década de 1960 até 1969, próximo ao fim do conflito. Formato que torna a narrativa ainda mais instigante. Chimamanda tem um perfil de escrita muito característico narrando não só a fala dos personagens, mas o que se passa na cabeça deles, em situações demasiadamente humanas. Durante a guerra civil, todos os personagens são forçados a tomar decisões definitivas sobre o amor, responsabilidade, nação, família, lealdade e traição. Eles assistem ao desmoronar da realidade tal como a conheciam, mas plenamente conscientes de suas escolhas e sonhos.

A história em Meio sol amarelo

Para iniciar a leitura, é interessante dar alguns passos atrás e pensar na formação do país africano divido pelo Ingleses sem respeitar as relações e conflitos tribais. Ou pelo contrário, levando em consideração esses conflitos para facilitar o controle do território.

A Nigéria é dividida pelo Rio Niger, que deu nome ao país e no Sudoeste predominavam os Yoruba, no Sudeste os Igbos (católicos) e no Norte os Hauças (muçulmanos)Esse é o país mais populoso da África com cerca de 175 milhões de habitantes e o primeiro produtor de petróleo.

O conflito foi iniciado, justamente, por um golpe de militares Igbos e combatido em um contra-golpe de militares Hauçás. No entanto, vamos percebendo que o governo nigeriano – com apoio de grandes nações – nunca permitiria a separação do novo território abrindo mão do petróleo existente nele. No livro, o povo de Biafra já até mesmo refina o próprio Petróleo, mas aos poucos vai perdendo a autonomia. Um dos principais argumentos do governo é que a independência poderia desencadear uma série de revoluções em todo continente e com isso ainda mais mortes.

O grande trunfo para a vitória da Nigéria –  além dos ataques aéreos – foi o bloqueio de comida para Biafra que definhou a população até a rendição. Na história, Olanna conta o momento que reabrem as estradas e as prateleiras do supermercado já estão cheias em um misto de maldade e precisão. Pela primeira vez, estava sendo documentado para o mundo todo pessoas morrendo de fome.

Mais tarde, quando foi ao mercado com Baby e Ugwu, ficou boquiaberta com as montanhas de arroz e feijão exibidas nas bacias, com o deliciosamente malcheiroso peixe, com a carne sangrenta que atraía as moscas. Alimentos que pareciam ter caído do céu, envoltos num maravilhamento quase perverso.”

A história se cruza com a história da família de Adichie que viveu este sombrio período. Para a construção do livro, a autora conta que entrevistou muitas pessoas e familiares para poder contar sua verdade imaginada da guerra Nigéria-Biafra e revisitar essas dores.

Uma república ainda em conflito e dividida

Mesmo 47 anos depois do conflito, a Nigéria ainda permanece dividida. A seita Boko Haram, criada há 15 anos, se tornou mais do que uma ameaça. Nos últimos anos, os radicais do grupo extremista que significa “a educação ocidental é pecado”, em hauça, tomaram o controle de uma ampla zona no nordeste do país, onde tinham proclamado um califado independente, inclusive fazendo incursões aos países vizinhos.

A violência é a principal característica da seita islâmica nascida em 2002 no nordeste da Nigéria pelas mãos do religioso Mohamed Yusuf. O resultado: uma longa campanha de assaltos, sequestros e atentados em torno dos Estados de Borno, Adamawa e Yobe, que acabou com a vida de 20.000 a 30.000 pessoas e obrigou mais de dois milhões a fugirem de seus lares. Os anos passam e os conflitos continuam. Em maior ou menor escala.

Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
Natália Figueiredo


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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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