Lima Barreto, um autor à frente do seu tempo

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Lima Barreto, um dos maiores escritores brasileiros, viveu sua vida e sua literatura como um infinito projeto de denúncia contra a injustiça.

Afonso Henriques de Lima Barreto era o escritor que ninguém queria ouvir falar – e nem mesmo ler. Era negro, pobre, alcoólatra, marginalizado e pouco são, mas presenteado com a genialidade. E tal como a maioria dos gênios, viveu no abismo entre a sanidade e a loucura, além de ter sido devidamente reconhecido somente após sua morte. Lima Barreto foi, assim como Machado de Assis, um grande crítico dos costumes da sociedade brasileira e do homem mediano de seu tempo.

Destemido, nem mesmo o seu ofício escapava das palavras afiadas do autor, que sentia repúdio de outros escritores: “Eu não sou literato, detesto com toda paixão essa espécie de animal”, dizia. A crítica de Lima Barreto a Primeira República Brasileira era, em parte, por razão do ingênuo sentimento nacionalista que vinha crescendo na população, que não enxergava que, na verdade, a renovação do país após a fundação da república não aconteceria e os privilégios da aristocracia seriam mantidos – além da segregação racial.

A casa onde Lima Barreto nasceu, no Rio de Janeiro.

Crítico feroz da mediocridade e da segregação racial

No entanto, sua história o ajudou a elucidar aqueles que andavam na margem da sociedade. Sua mãe era filha de escravo e seu pai também, apesar de trabalhar como tipógrafo e ter ligações com o Visconde de Ouro Preto, que se tornou padrinho de Lima Barreto. Foi através da influência do padrinho que Lima, apesar do contexto de sua vida familiar, tornou-se muito bem intruido. Em 1895, Lima ingressou no Colégio Pedro II, uma das escolas mais conceituadas do país e frequentada apenas pela elite carioca. Começou a estudar engenharia na universidade, mas precisou abandonar o curso e se dedicar ao trabalho para sustentar a casa, situação ocasionada pela internação de seu pai em um hospício.

Além de alcoólatra, Lima Barreto foi vítima da loucura e acabou internado algumas vezes, assim como seu pai. Nas palavras do autor: “Nasci mulato, pobre e livre”, dizia de si mesmo. No entanto, apesar de ter nascido 7 anos antes da Lei Áurea, o escritor vivenciou um país livre da escravidão – mas não do racismo. Em meio as diversas mudanças que o Rio de Janeiro passava na virada do século XIX para o século XX, Lima apontava que as modificações na cidade apenas ajudavam a aumentar as injustiças sociais e o preconceito. Logo, não enxergava o brasileiro como uma vítima da corrupção da república e da extinta monarquia, mas também um elemento na equação da injustiça.

Retrato de Lima Barreto em uma ficha de internação no hospício.

O legado visionário

Lima Barreto faleceu no dia 1 de novembro de 1922, em sua casa no subúrbio carioca, apenas alguns meses depois da Semana de Arte Moderna. O autor parece ter realizado uma retirada estratégica – logo quando o presságio da modernidade começava, por bem ou contra a vontade de alguns. Sua visão, muitas vezes mal interpretada pelos críticos de sua época, soa extremamente atual. Os problemas sociais, a aposentadoria da escravidão e não do racismo, a resignação do brasileiro no decorrer da evolução do mundo, a corrupção dos governantes, o desprezo pelos marginalizados e por aqueles que não pertencem a elite, o contentamento com o insuficiente – todas são características bastante presentes no cenário atual do país.

Atualmente, seu acervo de 1.100 documentos e textos, preservado na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, foi incluído no Programa de Memória do Mundo, organizado pela Unesco. Neste sentido, 2017 foi um ano atribulado para a memória do autor. Com o título de Triste visionário, sua biografia escrita pela autora Lilia Moritz Schwarcz foi lançada este ano, ao mesmo tempo em que o escritor foi o homenageado da FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty.

O Rio de Janeiro que Lima Barreto viveu, marcado pela influência das grandes cidades europeias, no Século XIX.

Além disso, sua vida e sua obra deram origem a peça “Tragam-me a cabeça de Lima Barreto”, que além de abordar a indiscutível importância literária do autor, falam sobre a sua luta contra o racismo. Na abertura, a peça choca o público ao narrar um episódio de eugenia, ou seja, a teoria de que algumas raças seriam superiores às outras por razões genéticas. A encenação do ato mostra a curiosidade de médicos que, após a morte de Lima Barreto, desejam examinar seu cérebro no intuito de entender como um homem negro pode ter sido tão bem sucedido na literatura – uma arte comandada pelos brancos.

No prefácio da obra de Lima Os Melhores Contos, o jornalista Francisco de Assis Barbosa lembra a analogia estabelecida pelo crítico literário Otto Maria Carpeaux entre Barreto e os escritores norte-americanos da década de 1910, precursores de uma literatura de protesto chamada de “remoção do lixo”. E, aparentemente, foi exatamente o que Lima Barreto fez na sociedade brasileira de seu tempo.

Confira as suas principais obras!


Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

O autor foi um crítico mordaz da vida carioca no período da primeira república, e não existe outra obra que apresente mais o seu ponto de vista do que Triste fim de Policarpo Quaresma. A obra traça o destino de um homem tomado pelo patriotismo cego, que luta ingenuamente contra a corrupção de políticos.

Triste fim de Policarpo Quaresma


O homem que sabia javanês, de Lima Barreto

Originalmente publicado em 1911 no jornal Gazeta da Tarde, o conto O homem que sabia javanês desmascara um dos maiores mitos da sociedade brasileira: o antigo fascínio pela erudição de quem é considerado “doutor”.

O homem que sabia javanês


Clara dos anjos, de Lima Barreto

Clara dos anjos é um romance póstumo, cuja elaboração levou mais de uma década. O assunto central da obra é o preconceito racial que o autor conheceu por experiência própria. Escrito em linguagem simples, a obra foge ao estilo literário comum de seu tempo.

Clara dos anjos


Os melhores contos, de Lima Barreto

No prefácio dos Melhores Contos do autor, o jornalista e biógrafo Francisco de Assis Barbosa lembra a analogia do crítico Otto Maria Carpeaux entre Lima e os escritores norte-americanos da década de 1910, precursores de uma literatura de protesto chamada de “remoção do lixo”, narrando como Lima Barreto foi o autor responsável por esta “remoção” na cultura brasileira de sua época.

Os melhores contos


A nova Califórnia, de Lima Barreto

Nesta obra, a nebulosidade das figuras de linguagem fazem o leitor ter uma certa dificuldade em encontrar o significado das frases. Mas que, no final das contas, leva o leitor a descobrir que por baixo de tudo está uma grande sátira a alma gananciosa do ser humano.

A nova Califórnia


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.

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