Vinicius de Moraes, na eternidade de cada instante

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Vinicius de Moraes deixou um legado indiscutivelmente sagrado para a música brasileira. Mas a poesia era a sua verdadeira paixão.

“Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure.” Escreveu o poeta e compositor em um de seus poemas mais conhecidos, o Soneto da fidelidade. Mas, o que Vinicius de Moraes não podia imaginar era que ele continuasse imortal mesmo após o final de sua vida – vivida com intensidade até a “eternidade de cada instante”, como ele costuma dizer. Considerado por muitos críticos e amantes da literatura como o “poeta da paixão“, Vinicius definitivamente nutria uma grande admiração pelo sentimento, no qual dizia-se estar “acorrentado”, alimentando-o não só em relações românticas, mas com seus amigos, família e principalmente no extenso legado literário e musical que deixou. A música brasileira não seria a mesma sem ele, que influenciou diretamente a carreira de inúmeros cantores e cantoras, atores e atrizes, escritores e jornalistas, como Pedro Bial. Gilberto Gil declarou: “Vinicius mudou a forma como os músicos compõem. Se não fosse por ele eu nunca teria me tornado compositor.”

Todos os caminhos levam a arte 

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de outubro de 1913, no bairro da Gávea. Filho de um violinista amador e de uma pianista, foi influenciado para o caminho da arte desde a infância. Frequentou o Colégio Santo Inácio, uma escola renomada do Rio, onde passou a cantar no coral e montar pequenas peças de teatro. Mais tarde, se formou na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ), local onde se tornou amigo do romancista Otavio Faria, a quem deve seu encanto pela vocação literária. Após voltar de uma temporada estudando literatura inglesa na Universidade de Oxford, na Inglaterra, passou a trabalhar como crítico de cinema do jornal “A Manhã”. Em 1946, começou a exercer a profissão que teria pelos próximos vinte anos – de diplomata – atuando como vice-cônsul em Los Angeles, passando também por Paris e Roma. No entanto, ao final do ano de 1968, foi aposentado compulsoriamente do cargo pelo AI – 5 (Ato Inconstitucional Nº 5), reflexo da ditadura militar que ocorria no país.

Da esquerda para direita: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Carlos Leão, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e Rubem Braga.

Bossa Nova: um ode ao Rio de Janeiro

Além de advogado, diplomata, crítico de cinema, escritor e músico, Vinicius também obteve prestígio como dramaturgo – o que começou com a sua famosa peça de teatro Orfeu da Conceição, que estreou em 1956.  Foi nessa mesma época que conheceu aquele que se tornaria seu amigo e parceiro lendário de composição, Tom Jobim, o qual vivenciou com Vinicius os tempos áureos da MPB (Música Popular Brasileira) que, segundo críticos, foi criada essencialmente com as composições da dupla, no ritmo de Bossa Nova.

Mais de 60 composições da autoria de Vinicius foram gravadas, por diversos artistas de segmentos musicais diferentes. Entre os clássicos, estão “Garota de Ipanema” – que chegou a ser gravada por Frank Sinatra – “Chega de saudade”, “Pela luz dos olhos teus”, “Eu sei que vou te amar”, “Insensatez”, “Canção do amor demais”, entre dezenas de outras canções escritas em parceria de Tom Jobim.

A poesia como um estilo de vida

O que difere Vinicius de Moraes, tanto para seu círculo pessoal de amigos quanto para a música e poesia brasileira, é a sua capacidade de expressar diariamente as suas paixões: pelo cotidiano comum, pelo cinema, poesia, música, arte, literatura, mulheres, amizade e principalmente pela eloquência do próprio sentimento. Vinicius viveu toda sua vida cercado das coisas que mais amava: amigos e poesia – e não seria exagero dizer que ele tinha muitos, que assim como ele almejavam pela arte: Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Nara Leão, Chico Buarque, Sérgio Buarque de Holanda, Cazuza, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti e até mesmo Portinari.

Um episódio em questão parece resumir muito o que Vinicius foi, e ainda é para todos os admiradores de seu legado – no dia em que foi aposentado pelo regime militar, Vinicius encontrava-se em Portugal, onde realizava um concerto. Após o espetáculo, foi aconselhado a ir embora pelos fundos do teatro, por conta do aglomerado de estudantes que protestavam contra o compositor. Em um ato de coragem, Vinicius preferiu sair pela porta da frente, declamando os versos de seu soneto Poética I: “De manhã escureço/De dia tardo/De tarde anoiteço/De noite ardo/A oeste a morte/Contra quem vivo/Do sul cativo/O este é meu norte/Outros que contem/Passo por passo/Eu morro ontem/Nasço amanhã/Ando onde há espaço/Meu tempo é quando.” Ao terminar, um dos jovens que protestava tirou a capa de seu traje acadêmico e colocou no chão para que Vinicius passasse sobre ela – ato que foi imitado pelos outros colegas que ali estavam. Em Portugal, o gesto significa uma homenagem de profundo respeito. Confira algumas das obras mais importantes do poeta!


Antologia poética, de Vinicius de Moraes

Antologia poética reúne a obra de um dos autores que mais influenciaram a cultura brasileira do século XX, em diversas áreas, tanto na literatura, no jornalismo, no cinema e na música popular. O livro foi organizado pelo próprio Vinicius, em 1960.

Antologia poética


Para viver um grande amor, de Vinicius de Moraes

Pode-se afirmar que este livro é um clássico moderno. Publicado pela primeira vez em 1962, seu público leitor só fez crescer desde então. O título — Para viver um grande amor — parece exercer sobre nós um grande fascínio, assim como todo o conteúdo poético da obra. Para viver um grande amor estrutura-se de modo singular: alterna poesia e prosa. Conforme o próprio Vinicius, “há, para o leitor que se der ao trabalho de percorrê-las em sua integridade, uma unidade evidente que as enfeixa: a do grande amor”.

Para viver um grande amor


Vinicius de Moraes – o poeta da paixão, de José Castello

Nesta obra vencedora do Prêmio Jabuti de melhor ensaio e biografia, em 1995, o autor e jornalista José Castello conta a vida singular de Vinicius de Moraes, um homem que deu forma quase perfeita à nossa experiência da paixão – quase porque, segundo ele, os defeitos das paixões são tão agradáveis quanto as qualidades. Durante dois anos o autor  realizou centenas de entrevistas com as esposas, os amigos e os parceiros do poeta. O resultado é o retrato completo de um homem que encantou seus semelhantes, apaixonou-se além dos limites do que é considerado politicamente correto e passou a vida em estado completo de poesia.

o poeta da paixão, vinicius de moraes


Livro de sonetos, de Vinicius de Moraes

O próprio Vinicius organizou a semente do que viria a ser este livro, em 1957. Dez anos depois, estavam reunidos mais de 50 poemas e sonetos do autor, que se encontram nesta edição. O que se pode perceber ao longo desses anos é que os sonetos escritos por Vinicius de Moraes acabaram por formar um acervo completamente singular na história da poesia brasileira. Eles chamam a nossa atenção pela carga emotiva que carregam, mas impressionam igualmente pela perfeição de suas formas.

O livro de sonetos, Vinicius de Moraes


O cinema de meus olhos, de Vinicius de Moraes

“Terríveis são as viagens no tempo, e o cinema de meus olhos é uma delas”, dizia Vinicius. Para ele, o cinema era um sonho e virou um trem fantasma envenenado. Nesta viagem no tempo que são as crônicas desta obra, vemos que a sétima arte já teve uma alma, e que mesmo os mais comerciais produtos de Hollywood tinham inocência. Segundo o poeta, o que vemos atualmente se resume a uma horda infernal de imagens uivando por um lugar ao sol da mídia.  Vinicius de Moraes relembra a época em que a arte ainda era uma força revolucionária – um mundo belo e ingênuo fluía nas telas do cinema Odeon, enquanto Vinicius andava de bicicleta com Rubem Braga no Leblon, no Rio de Janeiro.

O cinema de meus olhos, Vinicius de Moraes


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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