A importância dos sebos para a sociedade

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O comércio de livros usados e o seu papel na disseminação da cultura.


Todos nós sabemos – ou ao menos devíamos saber – que livros mudam vidas. Na última sexta-feira, 06 de outubro, o Estante Blog teve a oportunidade de acompanhar a Primavera de Literatura, que ocorreu no Centro Cultural da Light, no Rio de Janeiro. No evento aconteceram palestras sobre diversos temas de interesse de fãs de literatura, como o cenário atual dos quadrinhos no Brasil, os desafios de quem deseja se tornar um escritor e a vida dos donos de sebos.

A origem dos sebos

Muito antes das grandes livrarias invadirem o comércio brasileiro em meados da década de 1990, os sebos já eram parte importante da cultura nacional. A palavra sebo tem algumas origens – é provável que pelo menos um pouco de cada uma delas seja verdade. A primeira versão diz respeito ao uso da luz das velas para leitura, que antigamente eram feitas de gordura e de sebo. Conforme iam derretendo, acabam sujando os livros, deixando-os engordurados. A outra versão diz que os estudantes carregavam tanto os livros debaixo do braço que acabavam sujando-o, deixando ensebado. Origens à parte, Pernambuco foi o estado onde o primeiro livreiro utilizou o nome sebo, colocando-o escrito na porta de entrada de sua livraria, nos anos 50. No entanto, o comércio de livros usados apenas se tornou popular nos anos 60, em Recife, com o chamado Sebo Brandão. Estrangeiros que procuravam pela livraria acabavam chamando o local de Mr. Sebo, por pensarem que se tratava de um nome próprio – um fato que ajudou bastante a popularização da expressão.

Apesar de terem adquirido grande parte de sua popularidade na região Nordeste, os sebos chegaram a então capital, Rio de Janeiro, no século XIX. Mas a tendência de comercializar livros usados já era dominante na Europa, na qual a maior parte dos livreiros colocava à venda o seu próprio acervo, e o costume da troca de exemplares por outros também começou a crescer – principalmente quando alguém conseguia adquirir os títulos raros, polêmicos e censurados da época.

Comércio de livros usados nas ruas da Inglaterra, no século XIX.

Dores e delícias de ser um livreiro no Brasil

Na primeira palestra oferecida pelo Centro Cultural da Light, no Rio de Janeiro, o público ouviu os depoimentos de três livreiros cariocas: Maurício Gouveia, (Baratos da Ribeiro Livraria Ltda), Ivan Costa (Livreiro Errante) e Ronaldo Dias (Sábias Palavras Livros e Discos). Eles contaram um pouco de suas histórias de vida, do amor pelos livros e da trajetória pelo comércio de títulos usados.

Questionados sobre as dificuldades do livreiro dentro de um mercado tão competitivo e amplo, Maurício Gouveia apontou o comércio virtual como um desafio: “Para cidades pequenas é bom, nas cidades grandes é preciso encontrar o ponto de equilíbrio entre a margem de lucro e o capital de giro, além de ter que mudar o estoque com frequência e sempre oferecer novidades”, explicou. Neste contexto, o livreiro Ivan Costa, que apesar de manter uma parte de seu acervo na Estante Virtual, vende a maioria dos títulos andando pela cidade com sua bicicleta lotada de livros, mas aponta que existe preconceito: “Tem um pessoal que prefere o livro novo. E o livro que está na bicicleta e é usado acaba sendo sinônimo de sujo, de livro mal tratado”, refletiu Ivan.

Da esquerda para a direita: Maurício Gouveia (Baratos da Ribeiro), Ivan Costa (Livreiro Errante) e Ronaldo Dias (Sábias Palavras).

Segundo Maurício, dono da livraria Baratos da Ribeiro, atualmente a compra de livros nos sebos é uma questão cultural: “Antigamente existiam mais sebos do que livrarias tradicionais. Em Tokyo, um dos maiores centros urbanos do mundo, existe um bairro conhecido como O paraíso dos sebos, por ter 90 sebos em dois quarteirões”, contou. De acordo com ele, a febre do consumo – característica da contemporaneidade – é um dos grandes vilões dos livreiros. Em contrapartida, este mesmo consumo de massa trouxe uma nova tendência mundial que tem sido bastante vantajosa para os sebos: a valorização do Vintage, ou seja, objetos de outras épocas que ganharam um apelo comercial muito grande, no qual os comparadores consumem motivados pela nostalgia: “Aconteceu uma vingança do analógico, tem até um livro com esse nome. Objetos que iriam morrer, acabaram não morrendo”, ressaltou Maurício.

A principal diferença entre o público que frequenta sebos e livrarias tradicionais é o comportamento, de acordo com o dono da livraria carioca Baratos da Ribeiro: “As grandes livrarias se tornaram ambientes voltados exclusivamente para consumo – viraram cafés, ambientes de socialização, os livros são um cenário. Nos sebos, até os próprios donos se permitem se comportar de uma forma mais excêntrica, o contato é maior”, apontou Maurício Gouveia.  Este contato próximo entre o leitor e o livreiro é a parte favorita da rotina de Ivan Dias, dono do sebo Livreiro Errante: “A diversidade das pessoas nas ruas é muita. É preciso bastante para chamar atenção com livros na bicicleta, mas eu prefiro vender pessoalmente e ter contato. Para mim, livraria é um clima, um ambiente e não venda”, refletiu.

A bicicleta onde Ivan Costa, o dono do sebo Livreiro Errante, transporta seus livros pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ainda sobre as dificuldades, Ronaldo Dias, dono do sebo Sábias Palavras, ressaltou uma característica muito presente nos dias de hoje – a facilidade. Segundo ele, a disseminação quase infinita de informações por meio da internet tornou muito mais difícil precificar os livros: “O mais difícil, para mim, é dar valor ao livro que você vende. A facilidade que a internet trouxe atrapalha muito”, explicou. O livreiro Maurício compartilha da mesma opinião: “Com a internet, a consulta e a competitividade entre preços aumentou. Hoje, um livreiro pode pesquisar sobre um livro e encontrar diversos preços para o mesmo exemplar. Isso dificulta as vendas”, completou.

A leitura como fonte de radiação cultural

No entanto, apesar das dores de ser um dono de sebo no Brasil e atualmente, o prazer de trabalhar com o universo da literatura transcende qualquer dificuldade: “Trabalhar com sebos gera emprego, dá outras opções de compra ao público, educa sobre o reuso, além de ser produzir uma enorme radiação cultural“, afirmou Ivan. O livreiro do sebo Sábias Palavras, Ronaldo Dias, afirma que apesar das diferenças entre as grandes livrarias comerciais e os sebos, para os leitores apaixonados de verdade não existe distinção: “Leitor que é leitor de verdade vai aonde tem livro. Não importa onde”, contou. E, apesar do constante avanço da tecnologia, quem manterá acesa a luz dos livros físicos são exatamente os leitores vorazes: “O mal da tecnologia é que nada pode coexistir com ela, mas a relação, o sentimento das pessoas com os livros é que irá ditar o futuro“, assegurou o Livreiro Errante, Ivan Costa. Segundo ele e todos os livreiros presentes na Primavera de Literatura, o maior prazer existente no ofício é simples: levar o livro a quem está buscando. E, no final do dia, para os donos dos sebos isto é uma enorme alegria.


Confira aqui os sebos e livreiros na Estante Virtual


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Thayane Maria

Thayane Maria

Redatora em Estante Virtual
Thayane Maria, jornalista e cinéfila. Além de escrever para o Estante Blog, também mantém o seu blog no Medium: @Msmidnightlover. Vive em eterna busca pelo excêntrico.
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