[Resenha] “A amiga genial” é um delicioso convite à série napolitana

(5 Estrelas - 1 Votos)

Escrito pela misteriosa autora italiana, A amiga genial relata a infância e adolescência de duas meninas em um pobre e violento bairro de Nápoles.

Ler as páginas de A amiga genial é viajar para a periferia de Nápoles, na década de 1950, e viver ao lado da narradora Elena Greco (Lenu) e sua amiga – genial e imprevisível – Rafaella Cerullo (Lila) todas as aventuras da infância e as descobertas da adolescência. Lançado na Itália em 2011 e no Brasil em 2015, pela editora Globo Livros com o selo Biblioteca Azul, o livro não demorou a conquistar público e crítica no mundo todo.

Durante as 280 páginas da obra, a autora Elena Ferrante, nos presenteia com o olhar atento, realista e extremamente descritivo de Lenu sobre os moradores de seu bairro e ela mesma. O primeiro livro da tetralogia já parece adiantar o desfecho: o desaparecimento de Rafaella. Sem deixar nenhuma pista e até mesmo recortando seu rosto das fotos da família, Lila desaparece e a primeira pessoa que seu filho Rino recorre é Lenu.

Para acabar com a ideia da amiga de sumir do mapa, Lenu resolve escrever todas as lembranças da juventude, passados 60 anos. E assim vamos sendo imersos nas ruas do pobre e violento bairro de Nápoles onde as personagens cresceram, mas também na ilha de Ischia, nas estações de trem do Centro, à rua Dei Mille, os prédios cinzentos do pós-guerra e também a bela paisagem do Vesúvio.

Quando ir à escola é um desafio

Ambas as amigas, tornam-se alunas excepcionais no colégio primário, uma sempre instigando a outra a superar-se cada vez mais. No entanto, apenas os pais de Lenu são convencidos, pela professora Oliviero, a mantê-la na escola para cursar o ginásio. Fato que inicia uma tomada de rumos diferentes nas vidas das personagens. Lila – leitora voraz – começa a acompanhar as lições de latim que Lenu aprende na escola, mas através da biblioteca do bairro. Seu raciocínio é impressionante e acaba desafiando Lenu a melhorar sua compreensão.

Mas o aprendizado das duas começa a ir muito além dos livros ou da escola. Na rua, com os amigos, Lenu aprende uma série de lições que vão transformando-a em uma pessoa cada vez mais madura e uma aluna melhor. A admiração que sempre nutriu por Lila mostra-se recíproca – mesmo com as atitudes inesperadas da amiga. E a relação, ao mesmo tempo, confusa e intensa vai se mostrando cada vez mais forte, em meio aos sentimentos conflitantes da inveja e admiração.

Impossível não ler as páginas e não trazer a história para nossa própria infância, principalmente para quem cresceu no subúrbio. Em Nápoles ou no Rio de Janeiro, as desavenças na rua poderiam ser as mesmas, a relação entre as famílias ou o primeiro romance escondido.

Pensei nas conversas que tive com Lila e Pasquale durante o verão e de repente senti aquilo como uma verdadeira escola, mais verdadeira do que aquela que eu frequentava todos os dias”

Literatura e política

Três pautas importantes começam a ser levantadas neste primeiro livro: o empoderamento feminino a partir do acesso ao estudo, conquistado não sem muita insistência pela protagonista e sua professora; a luta de classes – quando a ascensão social é o único caminho para o respeito e mesmo segurança no bairro e a naturalização da violência e do crime organizado. Em meio às festas de fim de ano, desavenças são resolvidas aos tiros e a única justiça possível são as vias de fato. Um cenário não muito atípico de onde se falta educação.

Ao fim da trama, é impossível não parar de pensar nas duas amigas e seus novos caminhos tortuosos. Sorte que ainda temos outros três livros para continuar a saga. São eles: História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida. Todos sucesso absoluto de vendas e o último lançado este ano no Brasil.

O nome verdadeiro da autora segue sem confirmação, com algumas especulações na mídia italiana, mas ainda sigiloso por decisão de Ferrante que mantém o pseudônimo. O primeiro romance da tetralogia já está sendo adaptado para a televisão pela HBO, que deve estrear a série em 2018. Quem está ansioso?

Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
Natália Figueiredo
Comentários

Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

4 comentários em “[Resenha] “A amiga genial” é um delicioso convite à série napolitana

  • 07.09.2017 a 10:28 am
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    Ah, que resenha bacana! Gostei mais que demais! Muito boa, mesmo! Parabéns. É por essas e outras, que sou fã desse blog.

  • 04.09.2017 a 1:28 pm
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    Natália, que resenha incrível, supercompleta, muito bem elaborada, parabéns, você é top!
    Um abraço do leitor, sempre leitor do blog, Dieison Engroff

  • 01.09.2017 a 8:46 am
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    Adorei a resenha. Obrigada. Vou ler.

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