[Resenha] Livro “Meu amigo secreto” é o feminismo além das frases prontas

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Livro do coletivo Não Me Kahlo desmistifica tabus em relação a gênero, raça e sexualidade.

Nem toda hashtag ou textão do Facebook será em vão. Pelo menos esse é o objetivo do livro Meu amigo secreto: feminismo além das redes, publicado pela editora Edições de Janeiro, sob o selo Coleção Hashtag. Esse foi o primeiro título da coleção – e por enquanto o único – com intuito de promover debates e resultados mais concretos para questões essenciais repercutidas na internet. Uma proposta relevante, quando o muro simbólico, entre o mundo virtual e o real, vai ficando cada vez mais insignificante.

Composto por artigos das cinco autoras, integrantes do Coletivo Não Me Kahlo – organização para estudo da agenda feminista com mais de 1 milhão de likes no Facebook, o livro ajuda a compreender melhor as raízes do machismo e as principais pautas feministas. Entre elas: o padrão de beleza, a violência contra a mulher, aborto, o desafio da maternidade, barreiras no mundo geek, recorte de raça, a representação da mulher na comunicação e o porquê do ódio ao feminismo.

Como destaca Djalma Ribeiro, em seu prefácio, o próprio fato de teorizar sobre esses assuntos já é um ato político, uma tomada de posição para que se pense novos modelos de sociedade. É claro que há resistência de uma parcela significativa da população em romper com antigas práticas opressoras que não funcionam mais na vida contemporânea, mas o simples fato de questionar esse modus operante tem seu valor.

Existem diversas correntes que tentam deslegitimar as pautas femininas. Essas menosprezam suas lutas ou criam a ilusão nostálgica de que as sufragistas do século XIX, que tinham uma verdadeira causa, ao lutar a favor do voto feminino. Esse pensamento parte de uma lógica neoliberal, de que hoje bastaria ter uma boa auto-estima e correr atrás dos seus sonhos para chegar ao grau de igualdade entre homens e mulheres. Seria lindo se os números não contradissessem essas afirmações. No Brasil, das 200 maiores empresas, apenas três têm uma mulher no seu posto mais alto de comando; nenhuma é negra. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atestou que as mulheres recebem, em média, 74,5% dos salários dos homens no país. Um fosso de gênero que se repete ao redor do globo.

Amar o próprio corpo é um ato político

O livro nasceu após a imensa repercussão da #meuamigosecreto, que ajudou milhares de mulheres a revelarem as pequenas violências que sofrem no dia a dia, feitas por quem menos esperam; pessoas próximas que poderiam muito bem estar em uma reunião de amigo oculto. Antes de começar a leitura, imaginei tratar-se apenas de um livro de relatos, mas foi surpreendente ver o profundo embasamento das autoras. Há uma pluralidade de temas, pautados pelas denúncias contidas nas hashtags, como “Meu amigo secreto diz que aborto é assassinato, mas pediu pra namorada abortar quando engravidou”, que abriu o capítulo sobre aborto.

Ao longo das 254 páginas, cada uma das autoras contextualiza e exemplifica os temas transformando a obra em uma ferramenta essencial de informação. Tanto para quem já visita esse debate, quanto para quem é novo no assunto. Uma perfeita introdução a agenda feminista, sem rótulos ou achismos. É chocante ver os dados e relembrar como o Brasil ainda é atrasado em políticas para as mulheres; como as questões vão se naturalizando. Por exemplo, enquanto as trabalhadoras russas conquistaram o direito ao aborto legal e gratuito desde 1920, aparentemente no Brasil um defunto tem mais direitos garantidos do que nós.

Dados alarmantes mostram como a violência física e psicológica ainda são recorrentes. Em muitos casos, a própria vítima não se dá conta do tipo de relação a qual está se submetendo. Inocência? Não. Padrões construídos e reforçados socialmente; é “a subordinação como doutrina”.

O livro representa uma chance de se conectar a histórias de outras mulheres, criando empatia e relembrar nossas próprias histórias. Fomentemos o debate! Afinal, quem tem medo de feminista?

#meuamigosecreto - feminismo além das redes
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Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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