O que é que a Bahia tem? Tem novos escritores, tem!

O jovem autor baiano, Matheus Peleteiro, indica cinco livros importantes que o apresentaram ao universo literário.

Natural de Salvador, o jovem de 21 anos, Matheus Peleteiro, é hoje um dos expoentes da nova produção literária baiana. Em 2015, Matheus estreou no mercado editorial com o livro: Mundo Cão, lançado pela editora Novo Século, com o selo Novos Talentos da Literatura Brasileira. Dois anos depois, já são três livros publicados e seis escritos, ao mesmo tempo em que cursa a faculdade de Direito. Segundo ele, ainda há muito a ser dito e outras duas obras ainda estão por vir, uma distopia e um livro de contos. Com forte influência de mestres como Charles Bukowski e Rubem Fonseca, em seu primeiro livro, Matheus passeia pela literatura marginal, utilizando referências da música pop e do rap, ao construir uma narrativa forte e envolvente. Leia abaixo nossa entrevista com o escritor e conheça um pouco mais sobre o autor de Mundo Cão:

Como inspiração devo, irremediavelmente, citar Charles Bukowski. Antes dele acreditava que poesias eram `rimas idiotas` e que livros eram `filmes cheios de detalhes chatos`. Quando o li, fiquei fascinado com a forma crua e visceral de descrever a realidade, e rapidamente devorei as suas influências: Dostoievski, Hemingway e Kafka.”

EV: Como foi o seu processo criativo e os autores que mais o inspiraram?

Comecei a escrever a partir da necessidade que senti, após ler um tanto da literatura americana e da literatura russa, de contar de forma mais direta e crua sobre o que vive a minha geração nos dias de hoje. As suas ânsias, os seus medos, as suas carências e os assuntos que tentamos esconder. Sinto muita falta de uma literatura que fale sobre isso por aqui. Vejo muitas histórias interessantes, policiais, bem humoradas, mas pouco sobre essa juventude desnorteada e cheia de sonhos.

Quando estava no terceiro ano do ensino médio, aos 17 anos, comecei a escrever Mundo Cão, meu primeiro livro. Eu apenas chegava em casa e despejava, na voz de um personagem que personificava todos aqueles que tentam seguir seus sonhos e são sugados pelo “mundo cão” que os cerca, tudo que sentia necessidade de dizer. De reclamar, de trazer a tona. Meu processo criativo tem muito a ver com o que vivo.

Hoje, creio que os autores que mais me influenciaram foram: Charles Bukowski, Albert Camus, Rubem Fonseca, e Fiódor Dostóievski.

EV: Como estudante de Direito, ser advogado era um desejo antes de ser escritor?

Nunca desejei ser escritor, apenas me tornei. Alguma coisa gritou em meu peito e eu comecei a escrever e disse que tinha que publicar, e agora eu não consigo parar. Infelizmente ainda não posso afirmar com exatidão o caminho que desejo trilhar no direito, mas, posso dizer que ele é, para mim, uma espécie de rendição social. A literatura no Brasil é cada vez mais desvalorizada, e por mais que esteja sempre escrevendo, tenho consciência de que é complicado viver disso.  Acho o Direito um caminho digno, pois envolve a capacidade de se indignar, a qual pretendo jamais perder. Almejo me tornar um jurista competente, escrever algumas críticas no ramo, e compreender melhor as injustiças a que somos expostos através deste caminho.

EV: Como começou sua relação com os livros? Foi um processo natural?

A minha relação com os livros foi bastante tardia. Li o primeiro livro “de verdade” aos 16 anos, após assistir o seriado Californication e ir buscar suas referências. Li tantos livros em dois anos que aos 19 lancei o “Mundo Cão”. Foi um processo natural. Não me obriguei a nada, simplesmente escrevi, durante as madrugadas que me revirava sem conseguir dormir, quando a escrita me servia de calmante e enviei para editoras logo após, na expectativa de que retornassem. Elas retornaram, as críticas foram positivas, e acho que vai dando tudo certo (risos).

EV: O mercado editorial tem encolhido bastante, como trazer jovens autores para a literatura?

Acho que os jovens autores não vão deixar de existir. É como Rubem Fonseca constata no seu livro de crônicas “o romance morreu”, os leitores vão acabar? talvez. Mas os escritores não. Eles resistem. Conheci dezenas de autores, muitos ainda não publicados, desde a minha primeira publicação, e posso dizer que não acredito que a queda do mercado editorial possa reduzir o número de escritores no Brasil. O escritor tem sempre algo há dizer, e ele não consegue dormir com suas palavras entaladas na garganta. Um escritor pode tentar fugir do seu ofício, mas uma hora ele irá escrever, e eventualmente tentará publicar. É um fardo, um fardo positivo e bastante proveitoso.

EV: O Brasil ainda é um país de poucos leitores, as últimas pesquisas oficiais mostraram que quase metade da população não lê e que 30% dos entrevistados nunca compraram um livro. Quais são os principais empecilhos na sua opinião e como mudar esse cenário?

Acredito que parte da culpa é do sistema educacional, e outra parte da cultura de não leitura já enraizada. Os pais não indicam livros para seus filhos, na maioria das vezes porque não gostavam de ler, e seus filhos vão para o colégio escutar, de forma precoce, sobre antigas obras que nada lhes interessa no momento. Como ter, dessa maneira, apreço pela leitura? Há cinco anos, eu era um desses. Descobri a literatura num tropeço e tenho em mente que as pessoas somente começarão a ler livros, quando se enxergarem dentro do contexto literário. Minha ambição, registrando o nosso tempo, é chegar nessas pessoas.

EV: O seu primeiro livro, “Mundo cão”, passeia pela literatura marginal e tem como plano de fundo uma favela. A periferia foi um lugar familiar para você em Salvador?

Não. Nunca morei numa favela, mas esse assunto é muito interessante para mim. Muitos leitores, de diferentes estados, estavam convencidos de que eu tinha vivido lá, e muitos disseram que a favela (fictícia, diga-se de passagem), que construí se assemelhava à que viviam em diferentes estados. Mudam os lugares, mas a essência é bem parecida. Acho que construí o cenário através da convivência com pessoas que moram nas favelas e, principalmente com o rap, que me faz refletir desde que escutei um disco do Gabriel O Pensador com 9 anos. Convivi com muitas pessoas, mas nunca frequentei favela alguma. Seria desprezível, da minha parte, dizer que vivi essa realidade. Esse é só um dos cenários que se estendem por toda Salvador.

EV: Quais são seus planos futuros? Vamos ter mais obras saindo?

Certamente. Ano que vem lançarei uma distopia política, onde, num tom satírico, brinco com o momento político em que vivemos, trazendo a figura de um ditador ao Brasil em 2026. Sabe aquela música que a Legião Urbana cantou, “Geração coca-cola”? Eles diziam “E aí então vocês vão ver (…) Suas crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com as suas leis.”, estarei fazendo o mesmo, porém, na literatura. A literatura é também a minha forma de protesto.

Pretendo também, em setembro deste ano, lançar um livro de contos, e, posteriormente, talvez a minha maior obra, um retrato da juventude moderna. No momento, sou refém do tempo. Posso dizer apenas que ainda tenho muito a dizer.

EV: Consegue enumerar cinco livros que te ajudaram a construir o Matheus de hoje?

Notas de um velho safado, de Charles Bukowski. Foi o livro que me tornou leitor, e, posteriormente, escritor. Seu humor rebuscado e as críticas à sociedade me conquistaram de uma forma que nunca esperei jamais encontrar na literatura. Definitivamente, mudou a minha vida.

Notas de um Velho Safado de Charles Bukowski

O amor é tudo que nós dissemos que não era, de Charles Bukowski. Me ensinou o que é poesia, me fazendo relê-lo 7 vezes e me espantar em todas elas.

O amor é tudo que nós dissemos que não era

E do meio desse mundo prostituto, só amores guardei ao meu charuto, de Rubem Fonseca. Primeiro livro que li do Rubem. Vale ressaltar que li 10 livros do mesmo no mês em que “o descobri”. Acredito que se ele fosse apresentado aos jovens, a literatura seria mais popular. Sua acidez irônica torna a leitura de seus livros divertida, o que inicialmente pode trazer a tona a ideia de entretenimento, mas, do mesmo modo que é divertido, é também um dos escritores mais ricos de ideias que já li. O noir, o caos urbano, o existencialismo, está tudo ali, descrito de forma real e cotidiana. Sou fã.

Peter Pan, de James Barrie. Chorei como uma criança ao lê-lo. Sempre achei os termos “menino” e “moleque”, utilizados aqui na Bahia com viés pejorativo, adjetivos muito nobres, e o livro ajudou a desenvolver isso dentro de mim. Ao retratar os adultos como seres desalmados e a maturidade como uma loucura inexplicável, posso dizer que é um dos maiores livros que já li.

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O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Foi um livro que brincou com minhas feridas. Oscar brincou com coisas que evito pensar por serem demasiadamente dolorosas, e são estes livros os que me conquistam. Os que me tiram da zona de conforto, e que, como disse Kafka, “me picam e me mordem”.

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O livro narra, em primeira pessoa, a história de Pedro Contino, um jovem que sofre desde cedo por conta das peripécias da vida e, por mais que busque o melhor, vê, em sua sombra, o caos. Morador da favela Roda Vida, Pedro poderia ter traçado qualquer caminho, mas a vida escolheu um em especial. Mesmo em meio à ausência de recursos, é apresentado à literatura por um vizinho mais velho, e, por conta dela, cria uma importante consciência social. Guiado por músicas e livros, ele logo percebe como tudo funciona. Indigna-se e, amargamente, percebe que não tem poder para realizar uma mudança no mundo. O caos já faz parte deste garoto, que se envolve com drogas, álcool, e, para completar, com as mais belas e loucas mulheres.

 

 


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Comentários

Um comentário em “O que é que a Bahia tem? Tem novos escritores, tem!

  • 04.06.2017 a 12:34 am
    Permalink

    Felicitações Matheus! Sem conhecê_lo, fico orgulhosa de sua óptica na escritura! sensível, inteligente, sinto no ar,que a Bahia nos presenteia com o perfume de um Grande Escritor! Vá indo! Já! Grande abraço,
    Elis

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