[Resenha] Por que precisamos falar sobre o Kevin?

Por Natalia Figueiredo

A escritora americana, Lionel Shriver, foi aonde poucas pessoas querem ir. Ou mesmo querem pensar a respeito. O que leva um jovem, de família abastada do subúrbio dos Estados Unidos, a cometer uma série de assassinatos? Como vive a mãe e a família após a tragédia? É possível prever ou evitar? Quem é o culpado ou a culpada?

Lionel trabalha essas questões, ao mesmo tempo em que passeia por todos os últimos atentados juvenis em escolas, nos Estados Unidos. Em formato de cartas, o livro nos leva para dentro da casa de Eva, acompanhando a convivência problemática entre ela, o primogênito, Kevin Khatchadourian, o marido, Franklin, e a filha caçula.

Muito além das atrocidade cometidas, Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que disserta sobre a maternidade, o direito de escolha e o que leva uma mulher de quase 40 anos, realizada profissionalmente – e em seu casamento – a embarcar na maternidade. Mais do que isso, nas privações e mudanças dessa nova fase.

Todos os acontecimentos são retratados na perspectiva de Eva, que justamente por ter passado por momentos tão cruéis, utiliza a mesma crueldade para criticar a si mesma. A culpabilização da mãe, como principal responsável pelos atos do filho, é um tema aprofundado e confrontado por ela e outras mães, que continuam visitando seus filhos infratores nos centros de detenção. Afinal, dá para saber se esses jovens, simplesmente, nascem psicopatas ou as atitudes maternas desde a gestação poderiam influenciar em seu caráter?!

Aquele menino deu errado porque a mãe dele bebia ou se drogava. Ela deixou o garoto solto na rua; ela não ensinou a ele o que é certo e errado. Ninguém nunca diz que o pai era um bêbado, ou que o pai nunca estava em casa quando o garoto voltava da escola. E ninguém jamais diz que alguns desses garotos não prestam e pronto.”

A autora, que já tem sete livros publicados, definitivamente não foge de temas difíceis e sombrios da sociedade estadunidense. Crítica ferrenha, Lionel aborda os casos de atiradores em escolas, a fama de assassinos, o terrorismo, o sistema de saúde e a obesidade. Pautas típicas da agenda de seu país.

Uma importante questão do livro, em que a autora volta muitas vezes, é o fato de jovens se matarem todos os dias em bairros pobres de Detroit ou Los Angeles, mas quando isso ocorre em boas escolas do subúrbio é preciso achar um porquê. Mas esse motivo muitas vezes não existe. São ações meticulosamente planejadas para serem destrutivas. Mas a classe média precisa de culpados e precisa ser ressarcida por eles. São os mesmos crimes, mas em realidades diferentes de um mesmo país.

Kevin, também adaptado para o cinema, foi vencedor do Prêmio Orange, na Grã-Bretanha, em 2005, e antes de virar um bestseller, chegou a ser recusado por 30 editoras. Apesar de difícil, é um livro que olha para nossa sociedade e nos obriga a lidar com ela. Boa leitura!

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Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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