A singularidade da poesia de Hilda Hilst

Na semana do Dia Internacional da Poesia, conheça a vida e obra e Hilda Hilst.

Em entrevistas, Hilda Hilst contava que desde pequena, ela só queria saber de escrever. O encontro com a poesia foi como um encontro com ela mesma. A partir de uma escrita lúcida, romântica e, por vezes, crítica, Hilda falava sobre a condição humana, com excepcional qualidade literária e irreverência. Paulista de Jaú, a escritora foi considerada, pela crítica especializada, uma da maiores escritoras de língua portuguesa do século XX. Hilda foi poeta, ficcionista, cronista e dramaturga.

Hilda iniciou sua produção literária em São Paulo, com o livro de poemas Presságio, publicado em 1950. Segundo o Instituto Hilda Hilst, em 1965, ela mudou-se para Campinas e iniciou a construção da Casa do Sol – um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Em 1967, ela estreia na dramaturgia e em 1970, na ficção, com Fluxo floema.


Sonetos Que Não São

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”


Hilda produziu mais de 40 títulos, entre poesia, ficção e teatro, ganhando traduções em países como Itália, França, Portugal, Alemanha, Estados Unidos, Canadá e Argentina. Em 2004, aos 74 anos, Hilda se foi. Nos deixando, mas eternizando sua obra.

Neste ano, a jornalista Paula Dip conseguiu estender ainda mais as lembranças da escritora ao publicar o livro: Numa hora assim escura — A paixão literária de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst (José Olympio), com as cartas trocadas pelos autores que foram recuperadas. Caio foi um dos muitos pupilos da escritora, mas que também teria inspirado Hilda.

O escritor passou uma série de temporadas na Casa do Sol, entre 1969 e 1971. A residência era um oásis de liberdade em meio ao clima político da época. Os convidados de Hilda eram estimulados a trabalhar sua escrita, e falava-se de amor, magia, discos voadores e literatura. Confira sua extensa obra:


Cantares, de Hilda Hilst

Cantares reúne dois livros de poemas, publicados, respectivamente, em 1983 e 1995; ”Cantares de Perda e Predileção” e ”Cantares do Sem nome e de Partidas”. Obras breves, ambas constituem um dos instantes mais densos do lirismo hilstiano, que aqui revisita o tema do amor, dentro da melhor tradição da língua portuguesa.

cantares


Ficções, de Hilda Hilst

Os textos em prosa de Hilda Hilst têm todos o ritmo vagaroso de sementes. Suas palavras, frases, conceitos germinam atemporalmente na retina e na percepção de quem os lê. No ano de 1977 é publicado o livro Ficções, que recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), como “Melhor Livro do Ano”.

Ficções, de Hilda Hilst


Cartas de um sedutor, Hilda Hilst

Junto com A Obscena Senhora D e O Caderno Rosa de Lori Lambi, Cartas de um Sedutor compõe a trilogia erótico-pornográfica de Hilda Hilst. Em Cartas de um Sedutor, a autora descreve o cotidiano de Karl, um homem rico, amoral e culto, que busca a explicação para sua incompreensão da vida através do sexo. Karl escreve e envia vinte cartas provocativas a Cordélia, sua casta irmã. Os textos das cartas se misturam à vida de Stamatius, um poeta que encontra no lixo os manuscritos de Karl. Após a primeira leitura, percebe-se que ambos – Karl e Stamatius – são a mesma pessoa em tempos e condições diversos, mas com posturas diferentes diante dos mesmos questionamentos. O contraponto entre um e outro é o mote para uma obra de grandeza ímpar e absolutamente humana no seu sentido mais divino. A história do livro. Cartas de um Sedutor foi lançado originalmente em 1991.

Cartas de um sedutor, Hilda Hilst


Fluxo-floema, de Hilda Hilst

Fluxo-Floema, publicado originalmente em 1970 pela Editora Perspectiva, é o primeiro livro em prosa de Hilda Hilst, após a sistematização de sua primeira poesia (no volume ‘Poesia’, de 1967, da Editora Sal) e os anos de produção intensa para o teatro (1967-1970). Não há nele, contudo, qualquer embaraço de principiante. Trata-se, ao contrário, de um dos seus livros mais densos e radicais. Constitui-se de cinco textos de difícil enquadramento em qualquer gênero tradicional da prosa, dado que quase não há narrativa neles. Em apenas um desses textos, a ação propriamente dita tem alguma relevância, mas só porque ela é desdobrada vertiginosamente em metalinguagem e em metafísica.


Pornô chic, de Hilda Hilst

A Trilogia Obsena é formada por ‘O caderno rosa de Lori Lamby’, ‘Contos d’escárnio – textos grotescos’, ‘Cartas de um sedutor’ e ao ‘livro de poemas Bufólicas’. Pornô chic reúne os quatro títulos, ilustrados, traz o inédito Fragmento pornográfico rural e fortuna crítica que aborda a polêmica fase erótica de Hilst. O caderno rosa de Lori Lamby e Bufólicas recuperam as ilustrações de Millôr Fernandes e Jaguar para as primeiras edições. Para ilustrar Contos d’escárnio e Cartas de um sedutor foram convidadas Laura Teixeira e Veridiana Scarpelli, que apresentaram uma abordagem contemporânea ao pornô de Hilst. Considerados pela autora uma ‘experiência radical e divertida’, estes livros misturam humor, críticas à sociedade, todo tipo de práticas sexuais e referências a autores célebres pelo erotismo como Henry Miller e Georges Bataille. A leitura de Pornô Chic revela o quanto Hilst pode ser irônica, debochada e divertida sem perder o refinamento. Se O caderno rosa de Lori Lamby parece obsceno ao apresentar uma menina de oito anos relatando suas experiências sexuais, a autora surpreende os leitores com seu desfecho.

porno-chic-hilda-hilst


Veja abaixo, a cartunista Laerte lê o poema “Filó, a Fadinha Lésbica”, texto de Hilda Hilst publicado no livro Bufólicas (1992):

E você, qual a sua obra preferida da autora? Comente e aumente nossa lista :)

Comentários

Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

Um comentário em “A singularidade da poesia de Hilda Hilst

  • 02.04.2017 a 2:54 am
    Permalink

    Adorei o site, parabens!!

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