Estante Resenha: Ove, um dos protagonistas mais especiais da literatura

Por André Sequeira

Um homem de 59 anos com manias absurdas, mal humorado, ressentido com a vida e querendo morrer a qualquer custo. Na teoria, mais um personagem depressivo e chato da literatura. Muito pelo contrario. Ove é o cara mais pragmático do mundo, é incrível, é um cara único.

Triste pela morte da esposa, ele não se sente mais no direito de curtir a vida. Sem filhos e sem perspectiva, prepara tudo em casa para o suicídio que se aproxima. Enquanto isso, suas maiores preocupações são o lixo jogado na calçada por mal educados, a presença de carros em sua rua – área com circulação de veículos proibida -, entre muitas outras. Trivialidades para a maioria das pessoas, mas não para Ove.

Enquanto ele prepara sua morte, chegam seus novos vizinhos, um casal de imigrantes iranianos com duas filhas pequenas, que desde o começo adoram a figura inusitada do querido protagonista. O que ele não sabe, apesar de tê-los odiados por suas esquisitices, é que estes recém-chegados moradores, aliados a alguns excêntricos habitantes do bairro, vão transformar a sua vida.

Ove só quer morrer em paz. Seria pedir muito? […] Mas não podia ter feito isso, caramba, foi o que concluiu. Ele tinha um trabalho de que precisava cuidar. E como seria se as pessoas de tudo quanto é lado simplesmente parassem de trabalhar porque se mataram? (p.53)

É interessante notar como o leitor vai crescendo e abrindo seu coração ao mesmo tempo em que este processo ocorre com o protagonista. Ove é um homem que sofreu muito e sempre viu a vida como sendo preto no branco, um mundo maniqueísta. Os personagens que o cercam vão lhe mostrar que existe um meio termo e que vale a pena viver esse meio termo. Que a tristeza vivida e sentida precisa e deve ficar para trás.

Um homem chamado Ove é sincero, emocionante e, incrivelmente, engraçado. Muitas das situações criadas pelo autor são previsíveis e é aí que está o charme da obra. Não há invencionices, mas uma sensibilidade incrível na narrativa. As reações dos personagens descritas pelo autor Fredrik Backman são hilárias e criativas. Muitas eu nunca tinha pensado e caíram como uma luva. Ler este livro fará o leitor ser uma pessoa maior, melhor.

A explicação dificilmente aparecerá, mas, após ser apresentado a Ove, você não conseguirá mais esquecê-lo e não entenderá por que está com tanta vontade de conhecê-lo.

Recusado nas principais editoras suecas, Um homem chamado Ove tornou-se um fenômeno literário mundial, ganhando até uma adaptação para o cinema. Esta, aliás, concorre na categoria Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2017.

Um homem chamado Ove, de Fredrik Backman
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andreAndré Sequeira é jornalista há quatorze anos e viciado em esporte, literatura e cinema.

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