Estante Resenha: Americanah, um romance atual, sensível e necessário

Por Natalia Figueiredo

Americanah – adjetivo para quem sai da Nigéria e retorna com trejeitos e sotaque dos Estados Unidos. A palavra não tem tradução, mas poderia ser facilmente adotada em qualquer um dos países que receberam a publicação. Com apenas uma expressão, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie nomeia e resume seu terceiro romance e, o mais importante, produz um sentimento fundamental para um livro bem-sucedido: a identificação.

Extremamente atual, o romance levanta questões raciais, de imigração e de aceitação das próprias raízes – territoriais e ou mesmo de seu cabelo. Peças primordiais da história, que guiam a protagonista Ifemelu a levantar perguntas e hipóteses que as pessoas não estavam acostumadas a ouvir. Já no início do enredo, ela declara que está voltando para a Nigéria, seu país de origem, e aos poucos vamos descobrindo todos os desafios e dilemas que precisou enfrentar para se manter, trabalhar e estudar no país americano. Um dos motivos para o retorno, ela mesma demora a reconhecer, é seu amor de adolescência, Obinze. Esta história de amor foi interrompida entre a ida de Ifemelu para os Estados Unidos e a de Obinze para a Inglaterra.

Entre os dias bons e turbulentos nos Estados Unidos, Ifemelu destaca-se no meio acadêmico e começa seu próprio blog. Lá, escreve sobre o mundo dos negros nos Estados Unidos, visto por uma africana, que passou a entender o significado de ser negra apenas quando desembarcou por lá. Com olhar atento e uma pitada de sarcasmo, vamos tomando conhecimento das sutilezas do cotidiano, que muitas vezes não prestamos atenção.

Por meio de sua detalhada descrição de costumes, vamos mergulhando na vida das pessoas de Lagos, cidade na Nigéria, nos anos 1990 e 15 anos mais tarde. São sonhos, realidades e muitas proximidades também com os jovens de nosso país. Uma geração que não foge de guerras ou da fome, mas está disposta a passar privações em busca de um futuro melhor no exterior.

Todos entendiam o que era fugir de uma guerra, do tipo de pobreza que esmagava a alma das pessoas, mas não conseguiam entender a necessidade de escapar da letargia opressiva da falta de escolha. Não conseguiam entender por que as pessoas como ele, criadas com todo o necessário para satisfazer suas necessidades básicas, mas chafurdando na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia nesse outro lugar, agora estavam resolvidas a fazer coisas perigosas, ilegais, para poder ir embora. (p.298)

Muitas vezes a história da personagem e a trajetória da autora se cruzam. Com o romance, pude abrir os olhos para entender como nossas prateleiras ainda são tão embranquecidas. A maioria dos autores são homens e de língua inglesa. Esse é o primeiro romance de uma escritora africana que chega às minhas mãos, em 25 anos de vida, e tornou-se um dos mais relevantes. Uma pesquisa divulgada no livro Literatura Brasileira Contemporânea — Um território contestado (2012) traçou o perfil médio dos escritores e dos personagens da nossa literatura. Em sua maioria, os autores são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%, respectivamente). Os personagens negros são 7,9% e têm pouca voz: são apenas 5,8% dos protagonistas e 2,7% dos narradores. Números que dão a dimensão do abismo que restringe a diversidade.

Felizmente, ainda há algumas iniciativas para diversificar nossas leituras. Em 2014, mesmo ano de lançamento do romance de Chimamanda, a britânica Ann Morgan se impôs o desafio de, em um ano, ler um livro escrito em cada país do mundo. Ao fim, todos foram publicados em seu blog, tendo ela havia lido 196. No mesmo ano, a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), que estimulava a visibilidade de mulheres no campo literário.

A esperança é que cada vez mais Chimamandas cheguem às nossas prateleiras e tenhamos a oportunidade de ler boas histórias e diversificarmos os conhecimentos culturais ao redor do globo. Americanah foi vencedor do National Book Critics Circle Award, eleito um dos 10 melhores livros do ano pela NYT Book Review e seus direitos para o cinema já foram comprados por Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Doze Anos de Escravidão. Vamos aguardar a versão para a telona dessa obra tão fundamental.

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Natália Figueiredo

Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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Natália Figueiredo

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Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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