Estante Resenha: Jennifer Niven faz o leitor viajar por lugares incríveis

Por Marianna Vale

Em um mundo onde cada vez mais cresce o número de casos de depressão em crianças e jovens, a autora Jennifer Niven escreve uma história que coloca diretamente o dedo na ferida. Ao mesmo tempo em que a narrativa é leve, despretensiosa e divertida, ela é pesada, sincera e assustadora em alguns momentos. Acompanhamos o início da amizade entre Finch e Violet, ironicamente justo no momento onde os dois poderiam ter dado fim às próprias vidas, na alto da torre do sino da escola. Vemos os protagonistas lutarem contra seus demônios, um conhecendo e elevando a autoestima do outro, ao mesmo tempo em que afundam na areia movediça da vida.

Em Violet, percebemos o quanto as aparências enganam, percebemos como o ser humano é capaz de congelar um sorriso no rosto e, assim, mentir ao mundo dizendo que está tudo bem, mesmo que na verdade o mundo pareça estar desmoronando em nosso interior. Vemos que, por trás de uma menina popular, aparentemente frágil e inocente, pode morar na verdade uma arrombadora de portas, que passa seus dias sentindo como se houvesse um monstro crescendo dentro dela, uma voz que implora para passar por sua boca e mãos que, sem avisar, apertam sua garganta.

Em Finch, encontramos aquele menino deslocado que existe em qualquer escola. Aquele que os outros perturbam e debocham, o chamado “aberração”, que ninguém enxerga potencial. Na tentativa de fugir da realidade, a cada semana ele cria uma identidade própria, quem sabe para tentar sentir-se completo pelo menos uma vez, encontrar-se e fugir para um lugar interior onde pode ser apenas ele, mesmo sem saber exatamente quem seria na realidade. Sentimos através dele um desespero, misturado a uma complexidade que parece não caber dentro do corpo e que muito menos condiz com a sua idade. Acompanhamos abertamente seus problemas, questionamentos e sofrimentos, diferente da fortaleza em que Violet tenta, a principio, guardar os seus sentimentos.

O problema das pessoas é que elas esquecem que na maior parte do tempo o que importa são as pequenas coisas.

O livro fala sobre como não estamos sozinhos no mundo e também que ninguém é perfeito, nem a menina mais popular da escola nem o jogador galã do time. Todos temos luz e trevas dentro de nós, mas cada um procura sua forma de lidar com tais problemas, e, assim, alguns escondem melhor do que os outros.

Descobrimos com Violet e Finch o quanto ter alguém ao seu lado pode ajudar, o quanto conseguimos nos sentir completos e infinitos ao lado de alguém que também consideramos completos e infinitos. Aprendemos também o poder das palavras, e que algumas vezes, dizer algo em voz alta pode salvar a sua vida. A evolução dos personagens é clara. Violet nos mostra em pequenas atitudes como finalmente está superando a morte de sua irmã mais velha e voltando a aproveitar a vida. Finch se esforça para controlar toda a raiva e a mágoa que vivem dentro dele, além de dar uma chance para as pessoas ao seu redor, sem nunca perder, é claro, a espontaneidade característica.

Com o passar da história, conhecemos os dois lados da moeda em relação às pessoas: existem as que colocam o bem-estar do outro acima de tudo, inclusive do seu próprio, e existem outras que, talvez por medo e covardia, fecham os olhos para a realidade e ficam trancadas dentro de si, esperando tudo passar e a poeira baixar. O problema é que, nem sempre, a ferida se fecha sozinha. Não importa o cuidado que você tenha ou os remédios que tome, algumas vezes precisamos dar alguns pontos no corte. E não pense que é fácil. Tudo parece estar indo bem, mas de repente uma infecção aparece, não percebemos e voltamos a estaca zero do tratamento.

Pode parecer clichê, mas Por lugares incríveis realmente nos conduz a uma viagem incrível, onde descobrimos um pouco do significado real das palavras vida, morte, amor, depressão, companheirismo e trevas. A escrita da autora, em uma forma extremamente pessoal e sensível, permite-nos sentir a alegria que os personagens compartilham, assim como suas ansiedades, angustias e preocupações, tudo como se estivéssemos realmente vivenciando todos esses turbilhões de sentimentos.

por-lugares-incriveis
Clique na imagem e confira na Estante Virtual

 

Marianna Vale é designer, umbandista e integrante do time de Comunicação da Estante Virtual há três anos. Mari leu todas as últimas séries infantojuvenis lançadas, mas seu coração ainda pertence a saga Harry Potter.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Shares