Paulo Lins: “Todo lugar é lugar para um escritor”

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Autor de “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba” fala sobre vida e projetos atuais

Paulo Lins ficou famoso após seu livro Cidade de Deus (1997) ser adaptado para o cinema, em 2002, sob a bem-sucedida direção de Fernando Meirelles. Morador do bairro homônimo, Lins apresentou a realidade da favela no Rio de Janeiro dos anos 1970, resultando em um sucesso literário internacional.

Sujeito de sorriso largo, o escritor chegou mais cedo ao Salão Carioca do Livro, na última quinta-feira (24), e acompanhou da plateia, as palestras dos amigos e, também escritores, Rafael Vidal e Sergio Monte. Ele ainda esperava ansioso pelas poesias do pernambucano Miró. Uma troca bastante rica, que a LER conseguiu proporcionar. Sua mesa de debate já era a seguinte, onde participou de um bate-papo com Alberto Mussa, autor do “Compêndio mítico do Rio de Janeiro” – série de cinco novelas policiais. Com trajetórias bastante diferentes, os autores conversaram sobre racismo e os vestígios da escravidão relacionados às mortes de jovens negros no Brasil.

Há seis anos, Paulo Lins de 58 anos trocou a cidade do Rio por São Paulo. Tudo por conta de um amor. Lá, o escritor e pai coruja cria o filho João, de 11 anos e vive do que mais gosta de fazer: escrever. Durante sua vida profissional, Lins começou escrevendo poesia, quando se formou em Letras. Publicou dois romances, incluindo o mais recente “Desde que o samba é samba” e hoje dedica-se a adaptação de roteiros para cinema, teatro e televisão.

Em entrevista para o Estante Blog, o carioca contou sobre seus trabalhos atuais, a rotina após o grande sucesso de Cidade de Deus, livros que o inspiraram e a vida na cidade paulista. Para provar que qualquer cidade pode ser inspiradora, Lins começa a entrevista recitando versos da música Poder da Criação, de João Nogueira:

Não, não precisa se estar nem feliz, nem aflito/ Nem se refugiar em lugar mais bonito/ Em busca da inspiração/ Não, ela é uma luz que chega de repente/ Com a rapidez de uma estrela cadente/ Que acende a mente e o coração”

EV – Como escritor, você sentiu diferença em estar no Rio ou em São Paulo?

PL – Para mim todo lugar é lugar, eu já gostava da cidade, vivia indo à trabalho ou na época da poesia e agora com meu filho, a coisa mais linda do mundo, nem penso em sair de lá.

O que mudou na sua vida após o boom de Cidade de Deus?

Mudou que hoje eu vivo de literatura. Antes eu era professor, dava aula e agora vivo de escrever, o que é muito bom.

Quais autores mais te influenciaram e seus livros favoritos?

Engraçado que hoje eu vim pensando nisso no avião, eu gosto de todos os escritores, nacionais, estrangeiros… Entre os livros importantes estão Crime e Castigo, de Dostoievski, e principalmente, Fogo Morto, de José Lins do Rego, que foi muito especial.

Por quê?

Porque a história que eu escrevi era a história dos filhos e dos netos dos personagens de Fogo Morto. As pessoas que vieram para cá, após o fim da escravidão, quando o Rio de Janeiro passou a ser a capital da república.

Hoje, no que você vem trabalhando?

Eu estou muito focado em teatro, cinema e televisão. O projeto mais recente é o roteiro adaptado do livro “Nossos Ossos”, de Marcelino Freire, que venho trabalhando ao lado do também diretor e roteirista Snir Wein.

E qual a sua opinião sobre essa nova feira literária na cidade?

Eu estou gostando. Hoje é um dia de semana, então talvez as palestras poderiam ser mais tarde, para quem trabalha poder assistir também ou aos fins de semana. Por exemplo, dois fins de semana seguidos, ao invés de começar na quinta, para garantir que todos possam aproveitar.


Veja as obras do autor na Estante Virtual:

Cidade de Deus, de Paulo Lins

Saudado pela crítica como uma das maiores obras da literatura contemporânea, o livro acompanha as transformações sociais por que passou o bairro homônimo no subúrbio carioca. Um modelo do que aconteceu em todo o país, quando, nos anos 90, o tráfico de drogas substituiu a pequena criminalidade da década de 60. É notável a forte presença da poesia, invocada pelo narrador logo no início do romance: “Poesia, minha tia, ilumine as certezas dos homens e os tons de minhas palavras”. Tal insistência contrasta com o peso da miséria representada na narrativa.

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Clique na imagem e confira na Estante Virtual

Desde Que o Samba É Samba, de Paulo Lins

Com seu estilo inconfundível, que tanto agradou os leitores de “Cidade de Deus”, Paulo Lins resgata, agora, momentos da formação da cultura brasileira através do samba, da aparição da Umbanda e do modo de vida no Rio de Janeiro de 1928 a 1931. O trabalho, assim como o anterior, partiu de uma extensa pesquisa. Foram cinco anos de pesquisa e mais cinco para escrever o livro. Nele, o autor conta a história de diversos personagens envolvidos na fundação do primeiro bloco de Carnaval, da escola de samba Deixa Falar. Moradores e frequentadores da zona do baixo meretrício do Rio trazem ao leitor toda a realidade das ruas naquela época. Prostituição, relacionamentos conturbados, sexo, violência, mas também a fé e o samba, ditam o ritmo intenso e cativante da obra.

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Era Uma Vez… Eu!, de Paulo Lins, Maurício Carneiro, Beo da Silva e Eduardo Lima

Em Era uma vez… Eu!, o leitor encontrará o indesejável, o descartado. Verá as faces daquilo com que convivemos no céu, na terra e no mar, e que tanto renegamos: ele, o lixo. Este que cresce, cada vez maior, tomando todos os espaços em cores sujas, em papel amassado, em texturas que incomodam e exalam pela imagem o odor, o incômodo permanente que buscamos esconder. Até que de tão grandioso este lixo não possa mais ser escondido, nos absorvendo, sendo nosso próprio fim: ‘’Seus olhos serão lixo não reciclável, ainda que tenham visto todas as metáforas do infinito.

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Já conhecia as obras? Comente e participe!

Leia também: Feira traz a cultura literária para o Porto do Rio

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Natália Figueiredo

Natália Figueiredo

Jornalista Multimídia em Estante Virtual
Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.
Natália Figueiredo

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Natalia Figueiredo fez da escrita sua profissão. Começou a carreira no jornalismo impresso do Rio, mantém o blog de viagens Nat no Mundo (http://natnomundo.com/) e, hoje, escreve sobre literatura para o Estante Blog.

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