Cemitério Clandestino, de Ana Paula Maia

Quando as sombras acobertam parte do dia e o sol recua alguns metros atrás das montanhas, os meninos sobem a rua, eufóricos.

A bola, carregada com orgulho, passa de mão em mão. Todos querem tocá-la. Cada um deles pagou por um pedaço. Foram meses juntando dinheiro aqui e ali, realizando qualquer tipo de serviço. A bola havia de ser própria para futebol de campo, assinada por uma marca famosa, coisa profissional.

Nos sete dias da semana, os sete meninos se revezam com a bola. Cada um tem um lugar especial para descansá-la. Nos barracos em que moram, em meio a escassez, a poeira e o fedor, a bola é o único bem material que possuem, a única coisa bonita para se admirar em casa.

 

No topo da rua deserta, eles pulam o muro de um cemitério clandestino, que para eles é só um terreno com espaço suficiente para jogarem futebol sem serem incomodados.

Atravessam o local até a outra margem do muro, em que há um trecho plano de chão batido que facilita o desempenho deles. Demarcam o gol com o que encontram pelos cantos, geralmente pedras, às vezes pedaços de ossos ressequidos.

A partida começa: vagarosa, com passes sutis e dribles maliciosos. Minutos depois, ouve-se gritos de desforra, gestos rudes e palavrões. Ao menos dois dos meninos demonstram talento e algum futuro no futebol. Mas todos se empenham. É o momento em que viram ídolos imaginário, em que esquecem da miséria e da violência doméstica.

Gostam de estar entre os mortos. Desses mortos. Sem nome, idade ou passado que os identifiquem. Os restos mortais se misturam às pedras e pedaços de madeira. É difícil distingui-los.

Entre uma partida e outra, bebem água de uma torneira e se  refrescam lavando as cabeças. Decidem fazer uma partida de penaults. Dois dos meninos se revezam no gol. É sempre o momento mais tenso do jogo, onde os fracassos e sucessos se evidenciam, quando os talentos se mostram desmascarados.

O portão do cemitério é aberto e um caminhão pequeno entra. Os meninos param de jogar e vão se sentar num canto, observam a movimentação.

Dois homens descarregam do caminhão sacos de ossos. Suspendem a lona que cobre uma cova e jogam a ossada de vários corpos ali dentro. Com uma pá, cobrem os ossos com pouca terra. Uma chuva haverá de revelar o que está escondido.

Retornam ao caminhão e vão embora. Os meninos voltam a bater os penaults. A luz do dia está quase se apagando.

Um menino, carregando uma sacola, pula o muro e cumprimenta os colegas.

Caminha pelo local enquanto os outros concluem a partida de futebol. Espalhados estão algumas pequenas cruzes tombadas, crânios partidos, antebraços, fêmur, mandíbulas, costelas, entre outros cacos e lascas de ossos. Ele se abaixa e apanha alguns pedaços e observa-os na tentativa de identificar a parte do corpo. Decide por uma mandíbula e a coloca na sacola.

O jogo termina e a luz do dia também. Resta apenas o tom cinzento dos vestígios de luminosidade que os torna assemelhados a vultos.

Descem a rua, satisfeitos com a partida de futebol, comentando os melhores momentos. O menino mostra aos outros a mandíbula que encontrou. Riem e o chamam de maluco. Ele dá de ombros.

Em casa, a bola agora limpa, resplandece numa prateleira. O menino adormece enquanto para ela, sonhando com um futuro promissor, sonhando com a partida do dia seguinte.

Na casa ao lado, a mandíbula, ao lado de outros pedaços de ossos, resplandece numa prateleira. O menino adormece enquanto olha para ela, sonhando com esse pedaço de osso. Talvez seja o seu pai, talvez seja.

 

Ana Paula Maia (Rio de Janeiro). Publicou os romances O habitante das falhas subterrâneas, A guerra dos bastardos, Carvão animal, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e De gados e homens. Participa de diversas antologias de contos no Brasil e exterior. Tem obras traduzidas para o alemão, sérvio, francês, espanhol, italiano, etc. Para saber mais: facebook.com/maiatravis

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