A Estante Convida – Luiz Biajoni

Me and Janis Ali

Tem um período na vida de um jovem em que ele quer se conectar com a natureza e viajar para locais exóticos com cachoeiras e cogumelos, lugares onde espera viver alguma experiência mística enquanto usa substâncias ilícitas. Bem, eu tinha o Rio de Janeiro: o melhor local para qualquer jovem viver quaisquer experiências, inclusive as místicas embaladas a qualquer tipo de substâncias ilícitas – e lícitas também. Eu era jovem no Rio de Janeiro – e com uma propensão ao misticismo: minha mãe era uma numeróloga famosa na Zona Sul, atendia a artistas e dondocas, faturava alto. Cresci ouvindo que eu era um quatorze, nasci em nove de maio, 9+5 – queria dizer: eu era um nada. Todos os números são importantes, o dez fecha um ciclo; o onze abre novos caminhos; o doze é cheio de referências, os meses do ano, os apóstolos de Cristo; o treze é cabalístico; o quatorze não significa nada, absolutamente nada. Meu pai não se ligava muito nessas coisas da mamãe; ele trabalhava para o governo e ganhava muito bem – eu quase nunca o via, mas nada faltava em casa. E era uma época dura para a maioria das pessoas: final dos anos 1960.

Em mil novecentos e sessenta e oito eu completei a maioridade, descobri o daltonismo e experimentei um cigarrinho diferente pela primeira vez. Os estudantes tacavam fogo em Paris e as faíscas atingiam todo o mundo. Os hippies protestavam contra o Vietnã. Aqui, a música era arma contra a ditadura que se instalava. E eu estava no oculista. Minha doença nos olhos, a discromapsia, era rara e galopante, hereditária, tinha pulado uma geração, minha mãe, e agora me atacava. No oculista, doutor Nestor, um cara muito atencioso e inteligente, além de saber que o daltonismo era incurável, fiz também o exame para ver a pressão nos olhos. Estava meio alta. O doutor quis me dizer algo, apesar da presença de mamãe na consulta. Ele disse: para essa pressão aí algumas pessoas usam umas coisas diferentes. Fez um gesto com a mão, como se colocasse algo na boca, e piscou de um olho. Saudade do doutor Nestor.

Quem me incentivou na, digamos, terapia alternativa para a pressão dos olhos, foi meu tio Honório, irmão de minha mãe. Ele era um diplomata, ou algo assim. Vivia em viagens e trazia muambas, roupas, brinquedos, remédios, coisas lícitas e ilícitas, dos países por onde passava, aproveitando o livre trânsito pelas alfândegas. Ele gostava de algumas coisas ilícitas. Gostava também de música e me trazia vários discos que eu tocava no eletrofone Philips, presente de meu pai.

A doença progredia. Eu piscava e via tudo em preto-e-branco, e piscava de novo e via tudo em colorido. Estava meio deprimido por isso, e por saber que dali a algumas semanas ou meses estaria vendo tudo, tudinho, em PB. Justo quando os televisores coloridos chegavam ao Brasil. Justo quando tínhamos nos mudado para um edifício grande em Copacabana e meu quarto tinha vista para o Pão de Açúcar. Justo quando as capas dos discos ficavam mais doidas, ainda mais coloridas.

Fiquei realmente em depressão quando minha família propôs que eu continuasse estudando. Tinha acabado o colégio e queria ficar só ouvindo meus discos e fumando, não queria estudar. Como tinha dois tios físicos – um deles ficou bem famoso uns dez anos depois – acharam, e eu concordei, que eu deveria também estudar Física. Não Educação Física, que cansa demais: Física, aquela dos cálculos e dos átomos e dos planetas. Em 1969 entrei na Universidade do Brasil , que depois viraria a UFRJ.

Eu adorei Física. Não entendia nada, como a maioria dos alunos, mas adorei. Adoro até hoje. Gostava muito de ficar olhando – com os interruptores de cores defeituosos dos meus olhos – aqueles professores tentando explicar aquelas teorias absurdamente complexas nos quadros-negros. Depois, tínhamos as festas e toda curtição da juventude. Passei por muitas experiências místicas e até físicas, se é que me entendem, por lá.

A verdade é que eram poucos os meus amigos, à época. Um deles, o Ivan, estudava química industrial e era meio cego e zarolho, mas gostava de música, até tocava violão e piano, e sempre aparecia lá em casa para inventar umas canções. Quando alguém criava uma nova moda na literatura, como Huxley, ou no cinema, como Easy Rider, dizíamos que nossos olhos tinham problemas: gostávamos mesmo era de música. Era verdade. Ainda gosto. Saudade do Ivan.

Desde a minha descoberta do problema nos olhos, depois do meu aniversário de dezoito anos, eu tinha decidido que não tinha muito futuro; a numerologia de mamãe estava certa. Não ia me esforçar muito para coisa alguma. Em qualquer tempo vago, por menor que fosse, eu ficava lá no meu quarto, com meu Pão de Açúcar cada vez mais sépia, os meus discos e minhas viagens mentais.

Meus olhos foram definitivamente perdendo as cores durante 1969, até que chegou o Natal e o tio Honório apareceu com uma novidade. Eram pequenas figurinhas coloridas, com desenhos, que deviam ser colocadas sobre a língua, acredita? Achei que fosse pegadinha do meu tio. Não era. Não devemos fazer isso, crianças, mas comigo, ali, aconteceu algo que me emocionou: depois de colocar apenas um pedaço daquele papel com o desenho de uma asinha de borboleta em minha língua eu pisquei os olhos e não estava só vendo em colorido como todas as cores saltavam felizes sobre mim, numa alegria contagiante. Eu não achava certo, mas substâncias ilícitas me ajudavam com meus olhos e a culpa era do tio Honório. Saudades dele.

Era um verdadeiro milagre. Eu colocava um pedaço daquele aparentemente inofensivo papel em minha boca e conseguia ver aquelas incríveis capas dos discos que eu escutava extasiado: o Sgt. Peppers, dos Beatles; o Axis: Bold as Love, do Hendrix; o This Was, do Jethro Tull… e, mais que qualquer outro, pude ver aquela cintilante capa colorida de Cheap Thrills, da Janis Joplin, desenhada pelo Crumb. As cores do desenho, que eu não conseguia distinguir antes, fizeram com que a música, contida naquele disco de vinil, fizesse ainda mais sentido, fizesse meu coração bater ainda mais forte.

Naquele tempo, quase ninguém conhecia Janis Joplin por aqui -, mas eu não apenas a amava como sabia que ela era a mais especial entre os Jotas, a santíssima trindade do rock daqueles tempos: Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin. Ela tinha dois jotas no nome, então era mesmo a mais especial. O jota é a décima letra do alfabeto, significa o máximo de potencial de uma pessoa, explicava mamãe. Jesus, manja? Janis era como um duplo Jesus para mim.

O fato é que as cores na capa de Cheap Thrills e também a incrível vista da praia de Copacabana da janela do meu quarto – eu já tinha me esquecido como eram as cores do céu pintando o Pão de Açúcar quando o sol se punha – me fizeram ter novas esperanças a respeito da vida, do universo e de tudo o mais. Mal sabia que as coisas iam ficar ainda mais incríveis.

Um dia, minha mãe me mostrou uma notícia no jornal que fez com que eu coçasse os olhos – primeiro para tentar colocar alguma cor no preto-e-branco do papel; depois, para acreditar no que lia: Janis Joplin estava no Brasil. Melhor: no Rio de Janeiro, pertinho de casa. Segundo a matéria, ela iria se hospedar no Copacabana Palace para curtir o Carnaval carioca. Tremi de emoção verdadeira. Eu precisava vê-la, falar com ela. Meu inglês era precário, mas eu sabia que íamos conseguir nos comunicar de alguma maneira, teluricamente, sinestesicamente.

Precisava de um plano, precisava conseguir me aproximar dela. Eu e Ivan pensamos em alugar um quarto no hotel, mas ele estava lotado por causa do Carnaval. No dia da chegada da nossa deusa, ficamos parados diante do Palace durante todo o dia, mas só vimos uma Mercedes Benz grande e negra chegando, e suspeitamos que ela estivesse lá dentro.

Fizemos vigília durante todo o dia seguinte, mas nada. Fomos para casa frustrados com a informação privilegiada de um segurança do hotel: ela estava ali para descansar e não pretendia sair ou cair na farra. Fomos para o apê ouvir os discos e viajar nas capas.

Na tarde do dia seguinte, tentando não pensar que minha musa estava ali, a alguns metros de mim, saí sozinho para uma caminhada pela avenida Nossa Senhora de Copacabana. Eu piscava os olhos para olhar as cores bonitas que o céu de fevereiro derramava sobre os prédios, os pássaros, os carros, as pessoas – às vezes as cores apareciam, outras vezes não. Oh, eu pensava, como seria bom encontrar Janis, como seria um encontro para se lembrar por toda a vida!

Por um instante, numa piscada dos olhos, algo deu errado e voltei a ver em preto-e-branco. Não estava vendo as coisas normalmente, tudo estava com uma desfiguração interessante, as pessoas bailavam em minha frente ora como anjos, ora como monstros, carros agressivos com buzinas em forma de dragões ou mulheres com peitos que saltavam, de forma selvagem, das blusas, como bexigas de éter querendo ganhar os céus, mas tudo descolorido. Por que, raios, as cores tinham sumido e tudo voltava a ficar cinzento e branco e preto?

Intrigado, no momento seguinte percebi que as pessoas haviam desaparecido à minha frente: me vi na avenida estranhamente sozinho. Eu andava no sentido do Leme, esperava encontrar algum amigo por lá ou visitar Ivan, e não via ninguém no meu caminho: tinham todos simplesmente desaparecido. Seria um refluxo de gente numa sexta-feira de Carnaval? Teriam todos ido para suas casas, se aprontar para a melhor das noites de folia?

Senti, na sequência, que alguém se aproximava pelas minhas costas, e me virei rápido, com cuidado para não ser atropelado. Ele estava distante ainda, mas pude senti-lo: era um homem negro gigante, muito bonito, carregando uma garota pequena no colo. Não era uma criança, eu pude notar: era uma mulher. E ele vinha se aproximando, com passos firmes e sequenciados, com expressão preocupada – talvez a mulher não estivesse se sentindo bem, pensei. Era uma garota seminua, de biquíni, eu ia reparando enquanto se aproximavam. E tudo continuava em preto-e-branco para as minhas vistas, aquele negro retinto, gigantesco, se aproximando de mim com aquela mulher miúda nos braços. E então ele passou por mim e me olhou direto nos olhos e ordenou: “Precisamos ajudá-la!”. E eu olhei para a face da garota em seus braços – ela estava de olhos fechados – e era Janis Joplin!

Minha cabeça rodou e eu passei a acompanhar aquele cara, perturbado com a falta de pessoas naquela avenida que estava sempre, a qualquer hora do dia, muito movimentada. Entre uma batida e outra das minhas pálpebras, as cores pareciam retornar. Eu tentava acompanhar os passos daquele sujeito, mas ele andava rápido e eu ficava para trás, com a língua de fora. Até que, enfim, chegamos a um local e ele bateu forte à porta e um cara esquisito veio abrir.

– É ela, Tony?

– É.

– E ele?

– Não sei, encontrei na rua, deve ser um amigo dela.

– Você é amigo dela?

– Da Janis?

– É.

– Claro que sou!

E entramos todos. Era um bar ali na altura do Posto 2, não me lembro o nome. O cara esquisito tinha também um sotaque diferente. Ele gritou para uma loira que limpava umas coisas por ali e ela veio ver Janis. Abriu os olhos de Janis com os dedos, encostou o nariz e sentiu o hálito de álcool.

– Ela deve ter bebido muito. Ah, esses jovens! E também tomou sol demais.
– Tony, leva a moça pro hospital.

– Não dá, she´s famous, ela não vai ter sossego, os jornalistas vão azucrinar com ela.

– Vamos dar um banho nela, Arlete.

– Isso!

O entusiasmo tinha sido meu. E em poucos minutos estávamos todos num banheiro minúsculo nos fundos do bar com Janis Joplin nos braços do tal Tony. Deixamos a água fria cair sobre o corpo quente e vermelho. O estrangeiro trouxe água gelada e, depois de muita insistência, ela conseguiu beber um pouco. Em meu cérebro, os interruptores ameaçavam devolver-me as cores, mas eu começava a desconfiar da minha sanidade. Eu estava dan-do ba-nho na Ja-nis Jo-plin. Ivan não ia acreditar naquilo. Não acreditou. Eu mesmo não acredito.

Mas o melhor ainda viria. Enquanto Arlete, a loira, enxugava e vestia Janis com roupas emprestadas, fizemos as apresentações formais e fiquei amigo do negro bonito. Tony Checker. Ele cantava em boates, tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, e procurava uma chance. Ajudava no bar em troca de uma canja quando um amigo do dono entrou desesperado dizendo que a Janis tinha morrido em plena praia de Copacabana depois de beber muito gim com suco de laranja. Tony correu até lá e agora estávamos todos ali, menos o tal amigo maluco que acompanhava Janis – que devia estar dentro de si mesmo, numa viagem interior de morte e horror, àquela altura.

Nós estávamos ali, cuidando de Janis, que recobrava os sentidos. Instalaram-na numa cama, num quartinho dos fundos e eu sentei para conversar com Tony; um cara incrível. Ele apanhou uma cerveja para mim – adiantando que não bebia – e me contou sua história, falou sobre seus ídolos da música negra, sobre os incríveis shows que assistiu nos EUA, Marvin Gaye, James Brown. O tempo passou inacreditavelmente rápido enquanto alguns clientes chegavam e se acomodavam nas mesas, pedindo drinques. Uma banda ia se apresentar naquela noite e os técnicos começaram a ligar e testar os instrumentos quando o incrível aconteceu: Janis subiu ao palco.

Eu piscava meus olhos desesperado, tentando encontrar as cores naquela cena inusitada. Quando Janis apanhou o microfone e começou a cantar, à capela, Ball and Chain, abusando das vocalizações, as cores voltaram intactas para meus olhos, como num passe de mágica. A estrutura molecular do local sofreu uma alteração, tudo ficou brilhante e cheio de um espírito divino. Era como a capa de Cheap Thrills.

A plateia não sabia que quem estava ali era a dona da voz mais incrível do planeta que havia saído de um quase-coma alcoólico e vestia roupas emprestadas de Arlete; mas todos ficaram embasbacados. Ela tinha um copo na mão, alguém disse, depois, que era vodca, mas era só água com gelo. Bebericava e cantava; uma voz linda dos anjos que entrou pelos meus ouvidos e ligaram os disruptores do meu cérebro e meus olhos passaram as ver as cores, todas, demasiadas, brilhantes, cintilantes, caleidoscópicas. Foi quando Janis iniciou uma canção desconhecida – Tony disse que já a tinha ouvido, mas não soube dizer qual era -, que durou uns vinte minutos em bárbaras alterações vocais. Muitos, muitos anos depois, descobri qual era aquela canção: What I´d Said, do Ray Charles. E depois, infelizmente, ela cantou algo que não me lembro, pois estava em alguma outra instância da existência, tomado pelo álcool – não era acostumado a beber.

Quando acordei, o sol já tinha nascido, Janis tinha sumido e Tony cuidava de mim. Ele perguntou onde eu morava, chamou um táxi e o pagou e agradeceu a mim pela sugestão de mudança do seu nome artístico – a partir daquele dia, ia usar Tony Tornado, o melhor nome que um cantor pode ter. O T é a vigésima letra do alfabeto, tipo um duplo jota. Tony era um quarenta. Sempre foi. Saudade do Tony.

Cheguei em casa com o táxi, dormi um pouco, acordei excitado vendo tudo perfeitamente colorido, fiquei feliz e liguei para Ivan para contar a inacreditável aventura da noite anterior. Ele ouviu, perguntou por que eu não o chamara, eu não soube responder, ele disse que não acreditava em nada e desligou avisando: nunca mais fale comigo.

Naquela noite meu daltonismo foi curado. Acho que foi um milagre do duplo jota, sua voz angelical, a adrenalina que correu meu corpo naquele momento. Menos de oito meses depois, Janis estava morta. Fiquei deprimido até o final do ano, quando tio Honório trouxe outros presentinhos interessantes para mim, direto de Amsterdam.

Contudo, no ano seguinte fiquei feliz por saber que meu amigo, Tony Tornado, havia ganhado o Festival Internacional da Canção com a psicodélica BR-3. No segundo lugar estava Ivan, ele mesmo, com uma música chamada O Amor é o meu País.

O Rio de Janeiro é o melhor lugar para jovens e suas experiências. Naquele bar, naquele dia em que Janis Joplin se salvou de uma insolação e de um possível coma alcoólico, muitos não eram jovens procurando por experiências – e mesmo assim, tiveram. O Rio é, na verdade, o melhor lugar para qualquer tipo de pessoa ter qualquer tipo de experiência. Basta estar ali.

 

Luiz Biajoni nasceu em Americana, SP, em 1970. É casado e tem três filhos. Jornalista e roteirista, foi um dos pioneiros na publicação de literatura na internet no Brasil. Publicou em 2009 Elvis & Madona, romance adaptado para cinema, e em 2013, Três novelas policiais sacanas. Atualmente, desenvolve séries de TV.

Contatos com Luiz Biajoni podem ser feitos através do e-mail biajoni@gmail.com

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