PEDRO & ALEXANDRE

Sou uma princesa. Não daquelas de contos de fadas que minha mãe contava quando era pequenininha. Não sou também princesa de noticiário internacional casando com plebeus ou fugindo com guarda-costas. Sua princesa porque tenho súditos. Os melhores que alguém de minha idade poderia ter. Os mais leais que qualquer mulher poderia querer na vida. Quem me deu este título foi um deles. Descobri por acaso. Depois que ele passou meses rondando na escola com os motivos mais falsos do mundo. Dava vontade de rir. “Me empresta seu caderno de matemática?”“ Bolei um cenário alucinante para sua personagem. Você vai ver na nossa próxima aventura. ” ” Parabéns, você hoje foi a melhor jogadora do time. Aquele saque foi perfeito. Claro que eu não acreditava em nada disso. Ele sabe mais matemática do que qualquer um de nós. Lógico que não sou a melhor jogadora do time da escola, sou quase medíocre. Também não entendo a fissura que o grupo tem nessa história de RPG. É legal sim criar situações fantásticas, fazer de conta que se é uma coisa que não se é na realidade, mas jogar horas e mais horas uma aventura que tem mais brigas e desafios do que qualquer outra coisa, não vejo graça. O problema é que, realmente, não dá para fazer de forma mais… quente, mais… real, mais de acordo com o que a gente sente e sabe. Os meninos são tímidos demais para segurar essa barra. As mulheres que eles inventam são sempre guerreiras gostosas ou mocinhas passivas prestes a serem salvas pelos heróis. Eles. Meio infantis. Meio infantis.

Eu não digo isso para o grupo. Para que? Comecei a jogar porque o Alexandre adora. O jogo. E o Pedro. É o melhor amigo dele. E o mestre do jogo. Foi quem inventou esta história de jogar RPG na escola. De início, eu tinha até ciúmes dos dois. Sempre juntos. Na escola, no basquete, no clube, estudando em casa.

Namoro Alexandre há séculos. Sério. Desde a primeira série. Acho que desde a pré-escola. Eu me lembro de Alexandre carregando meus livros, na volta da escola, quando eu tinha uns seis ou sete anos, me olhando com aquele olharzinho derretido que ele tem. Por isso não gostei dele ficar tão fascinado com o Pedro, quando começou a estudar no nosso colégio, ano passado. Gostei menos ainda de saber que além do basquete, ainda teria de dividir o namorado com outro jogo só de homens. Pelo menos na quadra gente pode torcer. Resolvi participar por causa disso.

Não são ruins as reuniões que a gente faz para jogar RGP. É engraçado observar como os garotos resolvem situações. Geralmente, brigando. Não eles, as personagens que interpretam. Divertido mesmo ficou quando comecei a perceber que o Pedro passava metade do jogo olhando para mim. Não diretamente. Não olhando para o meu rosto, mas para as mãos, os ombros, as pernas. Um olhar meio enviesado. Um dia eu peguei ele olhando para o início do meu pescoço, bem no lugar onde encosta o colarinho da camisa da escola, como se fosse um vampiro prestes a dar o bote. Quando ele me olha de frente, olho no olho, é sempre de um jeito frio, quase formal. Aí, não sei o que me deu, resolvi implicar com ele, botar defeito nas histórias que inventa para a gente jogar. São muito boas as histórias porque o Pedro lê muito, viajou um bocado com os pais quando a família era rica, assistiu a filmes que a gente nunca ouviu falar, então ele tem sempre idéias ótimas de cenários, sugestões de coisas que as personagens podem fazer que jamais ocorreriam à gente. Outra coisa que dei para fazer ironia foi dos comentários dele sobre os professores, os tios, os colegas da escola.

O Pedro odeia quando digo que ele está dramatizando as situações. Ou então quando ele está no meio de uma crítica à professora de literatura e eu defendo a mulher. Fica arrasado se faço um muxoxo de desprezo quando ele se queixa da saudade que sente do seu computador. Um dia, fiquei até envergonhada depois. Eu disse que ele estava se fazendo de vítima. Foi uma vez que ele chegou com uma cara bem amarrada na reunião do grupo e começou a reclamar da vida. Quando eu disse “Pára de se fazer de vítima, Pedro”, ele deixou de fazer comentários pessoais.

Neste dia me senti malvada. O Alexandre até brigou comigo quando saímos. “Puxa, como você maltrata meu amigo! Precisa demonstrar desse jeito que não vai com a cara dele?” Eu não detesto o Pedro. Detesto a professora de literatura, que vive pisando nele em sala de aula, dando nota baixa nas redações maravilhosas que ele faz sobre vampiros, salteadores ingleses, moças que se amam num apartamento em Paris. Esta última, quando ele leu em voz alta na sala de aula, causou o maior rebuliço. A maioria da turma riu, achando que ele escreveu para afrontar a professora. Eu fiquei com pena de um amor tão intenso ser rejeitado. Porque na redação de Pedro, uma das personagens se sente constrangida com a paixão da outra. Meus olhos se encheram de lágrimas. Ainda bem que ninguém percebeu. Nem o Alexandre.

Neste dia, Pedro quase foi suspenso da escola. Nós ficamos em sala, uns torcendo contra, outros torcendo a favor. Dele. As meninas, principalmente. Muitas garotas têm um tesão enrustido por ele. Nas festas do colégio, sinto como elas gostam quando ele chama para dançar. Uma ou outra fica com ele. Escondido, porque a fama de Pedro é horrorosa. Por causa do pai que está preso. Dizem que é traficante. Dizem que Pedro usa drogas. Dizem que eles – Pedro e a mãe – fingem que são pobres, mas ajudaram pai a roubar dinheiro do governo. Eu não acredito em nada disso. Mas tenho medo dele também. Prefiro o Alexandre, que conheço desde pequena, conheço os pais, os amigos, o jeito de ele ser.

O diretor não estava, a secretária, a todo-poderosa, resolveu não punir Pedro. Nem suspender. Todo mundo ficou espantado porque ela era muito severa nas questões de disciplina. Ele voltou para a sala de aula com uma cara muito estranha. Deve ter levado uma bronca daquelas. O mais surpreendente é que ele demorou a quase uma hora na sala da diretoria e chegou com uma expressão calma, quase triunfante como se, em vez de uma bronca, tivesse recebido um prêmio. Não entendi nada.

A partir daí o Pedro mudou. Passou olhar menos para mim. Não me pediu mais cadernos emprestados. Devia ficar satisfeita com isso. Porque me incomodava gostar tanto dos olhares disfarçados que ele me lançava. Quando nos encontrávamos no clube me davam uma agonia. Acho linda a maneira dele cortar a piscina, nadando. Com aquela altura toda, o mergulho dele é o máximo. Sempre que sofria um ataque de admiração pelo Pedro, o eu colava na Alexandre depois. Dava cada beijo que o Alexandre ficava tonto. Chegou num ponto que pensei ter perdido um súdito. “Vai ver o Pedro arranjou outra garota para admirar”, eu pensava.

Engano meu. Uma tarde, ele ligou para minha casa. “Você pode se encontrar comigo às sete da noite no muro da escola, o muro dos fundos?” Assim, sem mais nem menos. Nenhuma explicação. Nem era uma pergunta. Ou um pedido. Quase uma ordem. Fui. O muro dos fundos tem uma brecha, dá para entrar no colégio, sem que o vigia perceba. Nós entramos. Sem uma palavra. Ele agarrou minha mão e foi me carregando. Eu indo atrás. Morta de medo. E achando a maior aventura ser carregada assim. Sem saber para onde. Mal e mal sabendo por que. É claro que eu suspeitava que Pedro era caidaço por mim. De longe. Olhando enviesado meu pescoço e minhas pernas. Como um vampiro. Certas redações que ele fazia – e mostrava para mim, em sala, em público – pareciam meio homenagem. Não que fossem sobre uma garota de quinze anos, loura, magra, jogadora de vôlei. Não. As redações eram sobre homens morenos, lésbicas, princesas, seres sobrenaturais. Mas tinham – as redações – sempre alguma coisa parecida comigo. Sério. Às vezes pensava que podia ser pretensão minha. Achar que tudo o que o Pedro escrevia, escrevia para mim. Quando nós chegamos à biblioteca, vazia, escura, eu tive certeza. Ele não dizia nada. Só me agarrava, beijava e dizia “princesa”. Como se sai eu pudesse matar a sede, a fome, como se a única pessoa do mundo tempo passa na vida dele fosse. A gente quase se ama. Parece que Pedro falou. “Há tanto tempo, eu quero amar você.” Eu não me incomodaria. Apesar de todos – menos o Alexandre – dizerem que ele não presta por que o pai e bandido. Inclusive meu pai e minha mãe. Apesar de eu ter certeza de que Alexandre também me ama e que um dia nós vamos nos casar. Nada que lembrasse, naquela hora, podia ser mais importante, mais bonito, mais emocionante, da que está deitada na mesa da biblioteca com Pedro mordendo, de leve, a batata de minha perna. E me chamando de “minha princesa”. Foi aí que escutamos o barulho de vidro quebrando.

De repente, mudou tudo. Ele parou de beijar a minha perna – se é que aquilo era um beijo – e ficou alerta. Não assustado. Alerta. Como se sentisse algum perigo. Ele foi ver o que era e voltou pálido, me puxando de novo, nós dois correndo escada abaixo, mas correndo mesmo, como se um bando de fantasmas estivesse atrás de nós. E estava. Dava para ouvir passos, de gente correndo, pelo menos duas pessoas, nos perseguindo. No meio do pátio, Pedro mandou que eu fosse embora sozinha, não esperasse por ele, fugisse sem olhar para trás. Como na história do poeta que foi o inferno buscar a mulher morta e não conseguiu trazê-la porque cismou em olhar para trás. Enquanto corria e atravessava o muro me lembrei dessa história. Pedro nos contou sobre Orfeu, numa das primeiras vezes em que jogamos RPG, era uma aventura de mitologia grega, ele queria “nos situar no contexto”, na hora e eu achei que ele estava nos esnobando, para mostrar que tinha aprendido coisas da Grécia em suas viagens, na época em que o pai dele era Rio. Fugindo, só pensava no que podia acontecer com Pedro enfrentando alguém que eu não sabia quem era. No que podia acontecer comigo sem meus pais e Alexandre descobrissem que o seguiram o melhor amigo de meu namorado para dentro da escola, para ser a princesa dele, por uns momentos. Escondida.

Ninguém soube o que aconteceu direito. Pedro apareceu no dia seguinte, no colégio, todo machucado, a mão engessada. Em silêncio. Dizem que ele surrou outro aluno. Dizem que ele tentou transar e o cara bateu nele porque recusou. Era fácil ele tenha saído de mais esta enrascada. Bastava me chamar como testemunha. Ele não se defendeu, ficou quieto. Apenas nós dois sabemos o que o Pedro estava fazendo no colégio naquela noite. Ele agüentou a culpa sozinho, quase foi expulso do colégio no final do ano. Porque é meu súdito.

Tanta coisa aconteceu depois disso. Eu fiquei noiva de Alexandre. Continuei assistindo Pedro dançar nas festas, com meninas que dão mole para ele. Acompanhei, de longe, Pedro, feliz, pensando que a vida de ia, finalmente, mudar, para melhor, para sempre. Fui ao enterro do pai dele. Pedro sério, formal, vestido como homem mais velho, blazer, sapato social, cumprimentando as pessoas, a mim inclusive, a Alexandre, sem ver ninguém. Nesse dia, depois do enterro, fui atrás dele. Nem sei como tive coragem. Mas uma princesa não pode perder um súdito, não é mesmo? Eu não podia deixar que ele fizesse o que aquele olhar esquisito indicava que ia fazer. Não sei explicar direito por que nunca fico triste a este ponto. Mas tem gente – diferente de mim, de Alexandre – que se deixar é capaz de fazer uma grande besteira quando fica triste demais. Por isso eu amei Pedro. Escondido. Só por uma tarde. Para trazê-lo de volta.

Amanhã vou me casar com Alexandre. Vamos ter nossa casa, três o sim u quatro filhos. Pedro não fez vestibular com a gente. Não sei o que ele vai fazer da vida. Nunca mais conversamos sozinhos. Nos encontramos muitas vezes, eu e Alexandre sempre juntos. Pedro vai ser nosso padrinho de casamento. Aceitou o convite. Eu vou guardar essa memória. Bem guardada. Num lugar onde ninguém encontre. Para quando for bem velhinha, tiver netos e bisnetos, poder me lembrar da época em que foi a princesa de dois homens. Meus súditos.

As personagens de Pedro & Alexandre foram criadas pela autora para a novela atentado, editada pela mesma editora.

 

A escritora Sonia Rodrigues é formada em Estudos Sociais e História e tem doutorado em literatura pela PUC-RJ. É autora de 25 livros, além de ser fã de uma boa história: “Bom livro para mim é o livro fiel à história e aos seus personagens. O livro onde o autor está a serviço da verdade deles”, revela.

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Rodrigo Espírito Santo

Rodrigo Espírito Santo

Colaborador em Estante Virtual
Mestre em Comunicação Social, MBA em Comunicação Corporativa, Pós-graduado em roteiro de audio visual. Mais de 15 anos de experiência em comunicação empresarial, endomarketing, redação publicitária, jornalística e de conteúdo para redes sociais.
Rodrigo Espírito Santo

Rodrigo Espírito Santo

Mestre em Comunicação Social, MBA em Comunicação Corporativa, Pós-graduado em roteiro de audio visual. Mais de 15 anos de experiência em comunicação empresarial, endomarketing, redação publicitária, jornalística e de conteúdo para redes sociais.

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