Piranhitas

Dois primos paravam à margem do rio. Catorze e treze anos. Deviam ter esses nomes de meninos — Fábio, Gustavo — para se chamarem de Binho e Guto. Garotos. Diminuíam um ao outro. Mas esticavam braços e pernas para dentro d’água. Para ver se estava fria. Se estava quente.

Não entravam, indecisos. Brincavam, precavidos, agitando a água, sentindo a temperatura, fingindo se preparar para mergulhar. Mergulharam tantas vezes, tantas outras, tantas antes, sem nem mesmo colocar um dedo, sem nem mesmo se importar com os graus. O calor já estava neles. E sempre haveria um bom motivo para afundar, refrescar, fugir do arrepio dos mosquitos.

Agora não, aos catorze, treze… Aos catorze e treze tinham consciência do perigo. Talvez fossem os braços e pernas, que se esticavam para dentro d’água. Talvez fosse o ensino, a escola, Ciências, talvez fosse a tênia solitária. E o rio em que mergulharam tantas vezes — tantas outras, tantas mais — ganhava novos riscos, doenças, novos tipos de correntezas.

O mais novo sabia do que tinha medo: piranhas. Dentinhos afiados trabalhando em conjunto, consumindo tudo o que ele insistisse em mergulhar. Ele era mais novo, mas tinha mais carne. Era mais branco, serviria de isca. Como boi de piranha, seria devorado por elas, enquanto seu primo… seu primo cruzaria a salvo. Bastava um ferimento aberto. Bastava um sangramento mínimo. Um corte quase imperceptível, elas perceberiam. Devorariam o garoto no rio em que  já fora menino.

O mais velho tinha medo de outra coisa: doenças. Nadara entre piranhas — e as pescara — na ponta de sua vara — sabia que elas não lhe fariam mal. Ele era magro. Era moreno. Era esguio e alongado, elas se assustariam com seus braços e pernadas. O perigo permaneceria imperceptível. Caramujos, platelmintos, sanguessugas. Animais minúsculos que se alimentariam da sua puberdade, avançariam antes de ele completar quinze. Comeriam suas entranhas, não deixariam nada para as piranhas.

Os dois ponderavam…

Os dois ponderavam, lado a lado, olhando para a água e tentando mergulhar os olhos lá no fundo, revolvendo o solo e descobrindo o que havia de errado, se havia algo escondido, por que não mergulhar naquele rio em que nadavam desde pequeninos?

Aos poucos, o calor foi suavizando, o sol se pondo, e eles sabiam que teria de ser logo ou nunca. Logo ou nunca, o rio não ficaria para sempre lá. O rio correria, secaria, e a vida os levaria para longe daquela infância que foi transformada em covardia.

Quem funcionaria como isca? Quem serviria de cobaia?

“Você primeiro”, “não, você”, travestiam em gentileza uma coragem que não tinham. Bastava só mergulhar os pés, bastava ver se o primeiro sobreviveria. Quando um mergulhasse, e não sobrevivesse, o outro apenas suspiraria “Ainda bem que não fui eu”.

“Então por que não entramos juntos?”, sugeriu o maior.

Não era o caso, não queriam fazer um pacto de suicídio. Ficaram em silêncio, concordando. Não queriam mais morrer juntos.

A água já estava vermelha pelo fim do dia. Logo seria noite e impossível. Voltariam para casa e depois para a cidade. Mais nenhuma oportunidade. O rio, a natureza chamando, e apenas os pés molhados. Metidos dentro de tênis, sentiriam os dedos enrugando. O tempo havia mesmo passado, as oportunidades, e eles nem aproveitaram.

Voltariam a ser crianças, num impulso, num mergulho, antes que fosse tarde. Fábio, Gustavo, Binho e Guto, se derramaram. Entraram na água até a cintura, deixando de pensar.

Tomaram coragem, foram de ímpeto, estavam na água para se molhar. O calor ainda era mais forte que os platelmintos, a água era mais limpa que os mosquitos. Cansaram de abanar os insetos, limpar o suor, olhar para o horizonte e imaginar o que estava lá. A correnteza não poderia levá-los. Já eram grandes demais. Braços, pernas, uns mergulhados, outros ao alcance da margem. Só um pouquinho, só mais um pouco, só um pouquinho não fará mal.

Mas a impaciência não é só virtude dos meninos. A ansiedade também faz chorar crocodilos, jacarés, eu. Já estava no final do meu dia e cansado de esperar. Que eles viessem até mim. Que me fossem trazidos pela correnteza. Que nadassem para meus braços, meu abraço, minha boca. Trabalho sozinho, mas sou mais esperto que piranhitas. Tenho apetite para os dois, para comer a carne e palitar os dentes. A doçura do mais novo e a crocância do maior. Carne vermelha, frango de leite. Se os meninos não vêm até nós, nós vamos até eles. Posso alcançá-los à margem. Haverá um dia em que os répteis voltarão a dominar a Terra.

Publicado em PornoFantasma (Ed. Record), 2011

 

 

SANTIAGO NAZARIAN (São Paulo, 1977) é autor de diversos romances, entre eles BiofobiaMastigando HumanosFeriado de Mim Mesmo e do volume de contos Pornofantasma. Descreve seu projeto literário como “existencialismo bizarro”, no qual mescla questões atemporais da literatura existencialista com cultura pop, trash, humor negro e horror. Tem obras publicadas em vários países da América Latina e Europa e direitos vendidos para cinema e teatro. Em 2003 ganhou o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura com seu romance de estreia. Em 2007, foi eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro. Além de escritor, é tradutor, roteirista e colabora em diversos periódicos.

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