Ofício: tradutor

É através do trabalho deles que uma grande variedade de livros chega até nós. Títulos que seríamos incapazes de ler e compreender se não fosse o minucioso trabalho de reescrever uma obra, preservando seu significado e estilo. Estamos falando dos tradutores e suas traduções, um trabalho árduo mas recompensador que, recentemente, virou foco de polêmicas envolvendo os eventos esportivos que serão sediados em nosso país. Expliquemos melhor: faça um pequeno teste. Pesquise no Google a expressão brazilian tourism (turismo brasileiro em inglês). O primeiro resultado da busca será a versão em inglês do site de turismo da Embratur, autarquia do Ministério do Turismo responsável por promover o Brasil como destino turístico e sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Tente compreender o que está escrito. Não se preocupe se você não é um expert na língua inglesa, garantimos que até mesmo um cidadão inglês nativo terá dificuldades para compreender algumas informações que encontramos por lá. Segundo o colunista do Portal IG, Seth Kugel, apesar do visual colorido e bonito, a tradução do website deixa bastante a desejar. Curioso? Então, confira aqui as principais falhas de tradução do site da Embratur.

Com os livros, a história não é diferente. Há cerca de um mês, a professora de inglês, Andréa Rossi, afirmou em carta que o primeiro livro da Saga Crepúsculo, escrito por Stephenie Meyer, foi publicado com mais de 300 erros de tradução. Isso sem falar nas 6 sentenças que, simplesmente, foram suprimidas da versão em português. Dentre os erros, falhas gravíssimas que mudam o sentido das palavras e até mesmo o contexto da história. Os erros apontados pela professora foram listados neste blog. De fato, os especialistas garantem: traduzir obras literárias pode ser mais desafiador que outros tipos de textos. “Os textos literários são livres, logo, o risco de alterar a ‘cor local’ é maior do que em um texto técnico”, exemplifica o tradutor técnico Jorge Ferrer. A tradutora Ana Vivacqua, proprietária da Satsuma, empresa com 10 anos de atuação na área de traduções técnicas concorda com a afirmação e ainda cita a poesia como o gênero literário mais complexo de todos. “Sua tradução é quase uma recriação do poema em outro idioma. O tradutor precisa trabalhar a linguagem em vários níveis, como significados, sons e imagens”, justifica.

Os desafios

Preservar o sentido original de um texto é considerado o grande desafio de um tradutor. Para ser fiel ao texto de origem pode ser necessário que o profissional faça uma pesquisa de termos e expressões a fim de adequar algumas terminologias à nova língua. E nesse caso, “o perigo está em acabar redigindo um texto novo, de autoria do tradutor”, alerta Ferrer. Para driblar esse perigo e garantir um texto fluente e coerente, cada tradutor encontra sua solução. Quando se depara com palavras e expressões que não existem na língua traduzida, Ana recorre a termos com significados próximos. Já Ferrer prefere manter a expressão original. “E explico seu sentido em uma nota de rodapé. Com isso, contribui-se para a cultura geral do leitor. É sempre interessante aprender palavras ou expressões locais”, complementa o tradutor. Mas Ana faz um alerta: “o uso de notas de rodapé é possível, mas nem sempre adequado sob o risco de termos um texto truncado e cheio de expressões estrangeiras”. Então, buscar o equilíbrio entre as duas alternativas é sempre a melhor saída.

A qualidade da tradução

A qualidade de uma tradução pode estar diretamente relacionada às qualidades de um bom tradutor. Para Ferrer, além do bom conhecimento da língua em que a obra foi escrita, “é preciso grande conhecimento da língua portuguesa, cultura geral e muita leitura”. Ele ainda dá algumas dicas para evitar os deslizes de uma tradução às pressas. “Sempre faço uma revisão da tradução. Às vezes, até mais de uma vez”, afirma. “Indispensável também é ter um bule de café fresquinho sempre à mão”, complementa Ana. E não é para menos, a rotina de um tradutor pode ser bem exaustiva. “A tradução é uma atividade essencialmente solitária. E a realidade do mercado é que precisamos cumprir prazos apertados. Uma métrica muito adotada no mercado é de 10 páginas ou 2.500 palavras por dia de trabalho”, exemplifica Ana.

Para Ferrer as obras em português de Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende e Thomas Mann são exemplos de traduções bem feitas. Já Ana, cita a tradução de Jorio Dauster para Lolita, de Vladimir Nabokov. “Nesse caso, a tradução preserva inclusive certa sonoridade da prosa do autor”, explica Ana. Mas o mercado literário não é só feito de bons exemplos. “Algumas traduções acabam ficando mal feitas porque tentam ‘abrasileirar’ o texto, colocando gírias e expressões locais em excesso, ou ainda simplificam o texto original”, afirma Ferrer que cita a versão nacional de Os Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher, como uma tradução que deixa a desejar. “As descrições muito bem feitas pela autora no original foram simplificadas na tradução”. Já Ana, cita um livro sobre os bastidores de uma série de tv americana. “Encontrei diversos erros de tradução de termos comuns da área e até mesmo havia falhas na parte sobre a relação entre os personagens do seriado”. Para ela, a falta de familiaridade do tradutor com o tema explica os erros que prejudicam a leitura.

Recentemente, a revista Época publicou uma matéria em que aborda uma suposta precarização da tradução no Brasil, justificada pelos baixos salários pagos aos tradutores e a falta de especialização dos mesmos. Ana concorda que a especialização é fundamental. “O tradutor é um mensageiro que deve ter pleno comando do português e do idioma de origem para transmitir sua mensagem”. E ela garante, com base em sua experiência profissional de mais de 20 anos, que o próprio mercado se encarrega de separar o joio do trigo. “Aqueles que são bons no que fazem ou que aprendem com seus erros são os que continuam a exercer a profissão”. Ela acredita, ainda, que as empresas que contratam tradutores também são responsáveis pela qualidade da tradução.  “Elas devem realizar uma seleção criteriosa, aplicando testes de tradução antes de enviar trabalhos. Depois, o monitoramento da qualidade da tradução também é importante, informando ao tradutor sobre os erros ou problemas encontrados. Tradutores iniciantes muitas vezes ficam inseguros e o feedback é importante para seu melhoramento pessoal”.

A recompensa

Mesmo diante da difícil tarefa de traduzir um texto, o trabalho de tradução tem seus prós e recompensas. “A tradução é uma atividade que mantém o profissional em contato constante com novos assuntos e novos formatos. O tradutor está sempre aprendendo, descobrindo e estudando”, afirma Ana. “Os tradutores proporcionam acesso a textos que nos enriquecem culturalmente, emocionalmente ou profissionalmente. É abrir as portas do mundo para nossa exploração”, finaliza Ferrer.

Comentários

Um comentário em “Ofício: tradutor

  • 27.03.2012 a 11:12 pm
    Permalink

    Boa noite: fantástica sua postagem. Parabéns pela matéria bem montada e bem pesquisada! E, como tradutora, fico muito contente que o blog da estante virtual aborde o tema da tradução.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Shares